domingo 11 de dezembro

A fim de continuar em ebulição criativa, anoto ideias enquanto escrevo o segundo romance, que é de trabalho intenso.

Aos 30 anos, com a experiência que ainda teima em fazer com que meu olhar seja inocente (a Y. disse: “você é uma criança”), a cada filme que assisto sou enviado à rememoração. Passado coletivo. Passado pessoal. O ponto de encontro entre passado coletivo e passado pessoal; cerne. A cena política em Godard. A experiência sensível do anjo em Wenders. Floreal e a ditadura argentina, este, que assisti hoje. Enfim.

A síntese do meu ano de 2022: vou à padaria portuguesa, compro cigarros. Vou à casa de amigo, vendo um livro. Vou ao Centro do Rio, fumo em tabacaria cubana. Vou à biblioteca francesa, faço empréstimo de obras. Retorno à casa – São João de Meriti, Rio de Janeiro, Brasil, América Latina – e escrevo. Se disse neste diário que “o processo de que eu era parte foi interrompido”, ao mínimo apoio que eu sentir o que direi é: processualidade contínua. A força que sinto quando escrevo – depois de ir ao fundo e voltar –, faz com que eu transcenda o óbvio (para citar Kerouac) e inscreva minha existência no presente. Ânsia por terminar o romance que estou levando à frente – experimental que desafia o leitor – e seguir ao projeto seguinte, a fim de fechar esta trinca e iniciar leituras filosóficas e literárias, estudos que são decisivos. Não escrevo por dinheiro – fosse assim teria alardeado meu livro nas redes sociais, e divulguei apenas a amigos; escrevo com o prazer que mantém o tênue sorriso que vem com a ironia impremeditada. Se existe um porquê para o que escrevo – além do motivo revolucionário –, é o seguinte: escrevo à mão e é quando passo para o computador que tenho a experiência mística de revelar para mim a beleza, uma beleza continuamente buscada e nunca satisfeita. Aconteceu uma transformação em mim, de 2021 para 2022: após escrever o primeiro romance, tenho confiança para escrever os próximos, unicamente porque consegui definir um estilo. Gilberto Gil diz que acredita na perfectibilidade humana à proporção do tempo, e Caetano Veloso diz: “It’s a long way”.

Minha próxima leitura será texto de Freud sobre a psicologia das massas. Tenho trabalhado no romance – e nas ideias – de domingo a domingo, e o tempo para ler é pouco.

Adelante.

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