quarta-feira 23 de novembro

Diário de Esboços camponeses, meu segundo romance.

Reorganizando o pensamento a partir de leituras recentes. Hegel diz: para além de uma situação presente, existe a situação presente seguinte. Isto é: se a utopia passa à dimensão real, o que vem a seguir é o elemento que deriva da utopia, e que não sabemos qual é – embora possamos imaginar. É sob tal perspectiva que exigir o fim da luta por sobrevivência – enquanto fim da ideologia capitalista neoliberal que é dependente de uma sociedade em “estado de natureza”, manifesta na luta por sobrevivência –, exigindo isto a partir de metanarrativa baseada em fatos históricos que mostram a possibilidade que é dar fim à luta por sobrevivência em nossa época, exigir isto é o prenúncio do que pode vir a partir da utopia, em sua situação presente seguinte.

Minhas leituras recentes estão concentradas na Revolução Francesa (1789). Porém, enquanto filósofo da história, o que interessa para mim é o pensamento a partir dos fatos, e não apenas os fatos. O que há na França do Antigo Regime é uma sociedade dividida em classes sociais – em terminologia histórica: estamentos. Há desigualdade social e, em tal contexto, as classes estão isoladas entre si. O isolamento em sociedade desigual permite a liberdade para poucos, e a classe que exerce a liberdade nesse momento histórico, por estar separada da aristocracia dominante, é a burguesia. Esta é uma liberdade de pensamento, a liberdade de conspirar contra o regime estabelecido, significando o que autores do futuro (Arendt, Lefort, etc.) chamam de “vida política”, o espaço onde a liberdade é exercida. O que interessa para mim é pensar o problema da liberdade em relação com o coletivo e o “indivíduo”, portanto o que extraio dos fatos que fizeram a Revolução Francesa é:

o Antigo Regime impõe o isolamento entre as classes sociais → dentro do isolamento a liberdade é exercida por poucos, e esta é uma liberdade de conspirar pela liberdade → a vida política, ainda que deformada, acontece → o que vem a seguir é a revolução → a História é aberta.

Esta não é a fórmula de nosso contexto, especialmente o brasileiro. A fim de dizer do contexto brasileiro, devemos iniciar pela igualdade – e, ainda que esta possua deformações, devemos afirmar a necessidade por igualdade, e devemos afirmar o fato de que qualquer pensamento deve ter a igualdade como pressuposto. A fórmula brasileira é a seguinte:

igualdade → o que há dentro da igualdade é, em paradoxo, a diferenciação entre classes sociais → a vida política acontece a partir da liberdade de pensamento que tem por pressuposto a igualdade [é com o fim do governo Bolsonaro que o Brasil, nas palavras de Vladimir Safatle, retorna à História] → dentro da vida política e com a liberdade de pensamento, as ideias circulam → havendo vida política, o que pode acontecer ao Brasil é revolucionariamente à esquerda, a partir do contínuo tensionamento que o debate político provoca (se revolucionários houver). Revolução e liberdade utópica, portanto.

Hegel: para além de uma situação presente, a situação presente seguinte; de modo que: meu pensamento está dentro da utopia, e o romance que escrevo, rebatendo as críticas que fazem à forma de emancipação comunista – de que qualquer sociedade será dividida entre opressores e oprimidos –, lançará a ideia que enfrenta isto, e lançará a ideia que intensifica a vontade por liberdade. A liberdade que acontece na “vida política” foi o que percebi como necessário, acontece que a liberdade por vir é a única com que sinto satisfação, e que explicitarei no romance.

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