filosofia da Origem

Foi em 2020 que nos primeiros meses da pandemia decidi por usar o tempo livre a fim de escrever, e o que fiz neste tempo livre foi esboçar a ideia central de nossa época: utopia. Esta ideia vem acompanhando meus dias desde 2017, e o que fiz no decurso dos anos foi reescrever o texto lentamente, a fim de prepará-lo com consciência. É no texto que eu escrevo o seguinte: “Suporíamos isto: uma filosofia da história, para colocar-se contra a totalidade sistêmica exposta pelo capitalismo neoliberal, faria a si como totalidade que seria desfeita assim que concluída, porque este mesmo movimento de conclusão corresponderia ao desfazer-se das bases ideológicas que sustentavam o ordenamento totalitário capitalista. Se esta filosofia da história existisse, e se houvesse ocasião para esboçá-la, seria filosofia da história definível como uma filosofia anti-totalidade.” Esta filosofia existe. O texto foi escrito e, dentre os pensadores que ousaram fazer reflexões durante a pandemia recente, destacaria o seguinte trecho de Boaventura de Sousa Santos (em livro escrito após o meu texto): “disponho-me a dar credibilidade à ideia de que o século XXI pode ser um começo de época“. O texto que escrevi tem o seguinte título: “Seríamos originários?”. A Origem não está no passado. Escrevi: “O que em primeira leitura pareceria um dizer que pretendesse recuperar passado supostamente ideal, esta proposição de Origem não é isto.” A fim de esclarecer o que foi proposto: é ser no século XXI a Origem de civilização futura. Se na pós-modernidade os sistemas filosóficos são vistos como elementos que pretendem instaurar relações de poder, o que meu sistema filosófico explicita é a ideia que desfaz o poder imposto pela ordem totalitária neoliberal. Segue o texto:

“Suporíamos isto: uma filosofia da história, para colocar-se contra a totalidade sistêmica exposta pelo capitalismo neoliberal, faria a si como totalidade que seria desfeita assim que concluída, posto que este mesmo movimento de conclusão corresponderia ao desfazer-se das bases ideológicas que sustentavam o ordenamento totalitário capitalista. Se esta filosofia da história existisse, e se houvesse ocasião para esboçá-la, seria filosofia da história definível como uma filosofia anti-totalidade. Isto porque com ela haveria um movimento subjetivo que adquiriria uma percepção histórica – entre tantas possíveis – na medida em que perderia esta percepção histórica em seus termos condicionantes, considerando que este seria movimento que lançaria o sujeito ao encontro com uma época que – se a ousadia fosse permitida – chamaríamos de Origem. Donde o caráter anti-totalitário desta filosofia, supondo uma possível ruptura. O que em primeira leitura pareceria um dizer que pretendesse recuperar passado supostamente ideal, esta proposição de Origem não é isto: não é isto porque, com Adorno, compreendemos que não há (ainda) uma filosofia da história que passe da barbárie à civilização, sem existir, portanto, um passado histórico ideal; diferentemente, compreendemos que há uma filosofia da história que observa um início e um fim, ensejando o fato de que esta Origem aconteceria em temporalidade presente que – tal como são os períodos históricos de transição – possui fatos que são da ordem do fim e fatos que são da ordem do início. Ora, em capitalismo estertor, cuja face totalitária pode ser vista na destruição da natureza que este sistema comete com o objetivo de atingir o lucro, a percepção de fim é latente, e uma pandemia não é senão acontecimento inscrito naqueles que são da ordem do fim, assim como a publicação de coletânea de textos é acontecimento inscrito naqueles que são da ordem do início. De modo que a Origem seria período histórico marcado pela presença de acontecimentos que são da ordem do fim e acontecimentos que são da ordem do início. Esta Origem realizaria abertura que descentra a oficialidade de história unívoca a impor o fato de que o começo é pretérito – isto é, aconteceu – e por ele somos condicionados, sem que pudéssemos iniciar por nós mesmos. Isto é assim, nada obstante a existência de outras dimensões históricas que expressam culturas próprias, inclusive aquelas que, por ocorrerem no interior do sistema totalitário capitalista, são contraculturais. De fato, se há ocasião para esboçar esta filosofia da história, a ocasião é dada por pandemia inscrita na ordem de acontecimentos que pertencem ao fim.

Origem por quê?

Esta filosofia da história é um esboço – esboço, primeiro, porque sua realização encontraria melhor lugar somente em livro; depois porque o estado atual deste livro diz de algo que está em vias de realizar-se – e este esboço pretenderia pôr em significação comum três momentos históricos que foram decisivos para a formação da realidade presente: a Antiguidade Clássica, o Renascimento e o fim da União Soviética. O que daria significação comum a estes três momentos, que chamo de condicionantes históricos? O fato de que eles formariam uma filosofia da história que condiz com outra filosofia da história: a primeira, estes três momentos históricos que ocorrem ao nível da superfície onde estão dispostos, e cuja leitura instintiva pode explicitar um início, a Antiguidade, e um fim, a URSS; a outra, revelando o significado destes momentos desde que relacionados entre si. Assim, o que põe estes três momentos em significação comum é o fato de que eles formam uma filosofia da história que é precedida por outra filosofia da história; esta seria reconhecível por três conceitos (que na próxima parte do texto definirei em termos simples): (1) expressão: há o conflito próprio a ser humano que existe em planeta cuja materialidade deve ser conhecida por este ser a fim de que haja chance de sobrevivência; (2) transformação: desta condição inicial – a relação entre ser humano e materialidade dada pelo planeta –, emerge a linguagem como fenômeno que existe para a transformação desta materialidade; (3) determinação: da relação, mediada pela linguagem, entre ser humano e materialidade que compõe o planeta, surge a potência de dar fim à necessidade de luta para sobreviver, haja vista os recursos naturais disponíveis. Ora, a partir desta exposição, é possível coadunar estes três conceitos aos três condicionantes históricos: a Antiguidade Clássica, por sua filosofia, pode ser definível pela apreensão da materialidade que compõe o planeta, em rudimentos: expressão; o Renascimento recupera o passado antigo e é marcado pela mudança da percepção da materialidade, com os atos iniciais de mentalidade científica que consiste em algo que parte da linguagem: transformação; o encerramento da URSS representa o desfecho de tentativa cuja potência era dar fim à necessidade de luta para sobreviver, em contexto histórico que alcançou percepção da materialidade a permitir a ausência de conflito: determinação. O realizar-se do que seria um movimento de transformação humano – a passagem do conflito próprio a estado natural para a ausência de conflito a compor cultura que seria realizadora deste mesmo natural, enquanto realizadora da potência dada por este natural – não ocorreu porque, na realidade conflitante exposta pela Guerra Fria, houve a presença dialética dos Estados Unidos, cujo princípio parece ser o da manutenção da vida no âmbito do que é mais rasteiro, pelo domínio a partir da imposição da luta por sobrevivência. O que é esta totalidade atual evidente em sistema econômico totalitário? O capitalismo impõe a luta por sobrevivência – o conflito – sem que o conflito possua base real para existir. Isto porque o percurso filosófico-histórico que expusemos evidencia a presença do conflito como dimensão ideológica de capitalismo totalitário, e esta dimensão ideológica é desfeita por este percurso filosófico-histórico na medida em que ele torna visível a ausência de conflito – fim da luta por sobrevivência – como potência real porque imanente às condições dadas pela relação entre ser humano, linguagem e materialidade dada pelo planeta. Portanto, este percurso filosófico-histórico demonstra a existência de ciclo que encontrou fim – se não há sustentação ideológica para realidade conflitante dada pelo capitalismo atual – e este fim encaminha na direção da Origem.

Origem do quê?

O conjunto de conceitos que chamo de expressão, transformação e determinação pode ser definido brevemente – isto é, em rudimentos, como esboço, nos limites dados por um pensamento em vias de realizar-se – de duas maneiras. Uma, enquanto conceitos filosóficos; a outra, enquanto conceitos históricos. Filosoficamente, diríamos que expressão é uma condição inicial que passará por transformação e encontrará o realizar-se deste ato transformativo com a determinação. O exemplo disto é a materialidade dada pelo planeta enquanto expressão que a partir da linguagem passará por transformação e encontrará determinação com o realizar-se deste ato transformativo – ato transformativo que não é senão a utopia feita. A passagem destes três conceitos filosóficos para o âmbito do que é histórico diz do seguinte: a expressão é o conjunto de textos que evidenciam uma dada temporalidade que por tais textos é concebida como época histórica: a Antiguidade Clássica é o exemplo; a transformação é o movimento com que a linguagem apreende uma realidade histórica inicial cujo legado foram os textos que constituíram uma época e que por esta linguagem são modificados: o Renascimento é o exemplo; a determinação ocorre em temporalidade que a partir dos textos disponíveis compreende a potência contida no passado a fim de realizar ato transformativo que em dado presente corresponderá à concepção da utopia: o exemplo é a URSS. Ora, se este caminho filosófico-histórico correspondeu ao encerramento de ciclo, pois que na temporalidade atual, a despeito da irrealização histórica da transformação, o pensamento é capaz de compreender este caminho – isto é, há expressão que corresponde ao conhecimento para o caminho histórico transformativo –, então diríamos que a Origem é dada pelo fato de que ela é época de expressão, tal como foi a Antiguidade Clássica: época de Origem a formar conjunto de textos que criam uma contracultura a evidenciar o fato de que esta época seria auto-originária. Antes, origem da própria temporalidade de origem. Isto porque os textos concebidos nesta temporalidade proposta passam eles mesmos por caminho transformativo, dado que são expressões a serem transformadas até encontrarem determinação que corresponde ao realizar-se deste ato transformativo, que cria percepções várias. Depois, ao passo que o sentido do contracultural é adquirir, à proporção do tempo, a condição de cultura – inicia-se entre poucos até lentamente espalhar-se –, há possibilidade de que os rumos de uma cultura feita nesta temporalidade de Origem sejam o encontro com civilização futura que nasceria a partir desta Origem.

Há futuro?

Uma origem, ou esta Origem, seria dada pela presença de conteúdos que provêm do passado e conteúdos que são criados no presente. Paul Veyne dá a medida de um conteúdo próprio ao passado que seria essencial para a temporalidade que vivemos: os economistas gregos, que ensinavam o modo com que há a perda de dependência para com a economia. Em sociedades consumistas, o quanto há de produção do que é dispensável. Ironicamente, o quanto há de pessoas que necessitam do básico. Perder a dependência diante da economia é organizar a sociedade de modo que todos tenham condições dignas de existência. O redimensionamento das necessidades a nível coletivo permitiria a sobrevivência digna dos que não têm e, igualmente, a sobrevivência do planeta a partir da manutenção dos recursos naturais que permitem a vida. As imagens do que não é conflitante – um indizível porque outrora inimaginável – são os céus antes marcados pela poluição e, quando da parada das máquinas imposta pela pandemia, a transformação do cinza em azul límpido que pressagia a potência de recuperação da natureza.”

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