manifesto pós-cultural

1. O historiador E. P. Thompson diz que a dimensão cultural da existência é o que rompe com o condicionamento pela formação histórico-econômica das sociedades neoliberais. Os sujeitos fazem a sua história a partir da consciência que têm – diz Thompson –, a seguir reinterpretam a cultura onde estão inseridos, é quando ponderam racionalmente e fazem escolhas. Poderíamos objetar que a percepção de tal historiador é incorreta.

2. A questão marxista clássica é esta: o que determina a consciência dos sujeitos quando em sociedade? Se esta é uma sociedade organizada pelo regime econômico neoliberal, a impor continuamente a luta por sobrevivência – e em tal luta a busca individualista pelo que é melhor para si –, a subjetividade é definida pela aceitação de tal luta por sobrevivência inerente. Subjetividades que aderem a isto são ausentes de percepção crítica da realidade onde estão inseridas.

3. Dizem que as vanguardas chegaram ao fim porque nos dias atuais é fácil sobreviver, e o que atravessa as ruas de São João de Meriti – cidade às margens do Rio de Janeiro – é a fome em demasia. O que é o pensamento filosófico diante de tal questão? O tempo é imóvel porque está dentro do regime de historicidade presentista: o que tem importância é somente o imediato onde o que vale é a busca do melhor para si. É a partir disto que surgem as desigualdades sociais, e tais desigualdades derivam da imposição da luta por sobrevivência.

4. Em face a um cenário onde a maioria da população é condicionada a lutar para sobreviver, a questão não é ter acesso ou não à cultura – a questão é que a cultura acessível por grupos que buscam “o melhor para si” é extensão da realidade histórico-econômica neoliberal. O que a frase anterior evidencia? Se a cultura, para Thompson, tem a função de romper com o condicionamento histórico-econômico das sociedades neoliberais, tal é a abstração incorreta, porque a cultura em tais sociedades é o atual elemento condicionante.

5. Se para Thompson pode ser a cultura enquanto elemento disruptivo – e não mais a alienação que deriva do trabalho –, o que determina a consciência dos sujeitos quando em sociedade é o que é feito pelo neoliberalismo: dispõem a cultura enquanto elemento subjetivo que diferencia, e para que isto seja assim há a mediação pelo mercado de bens culturais, o que explicita o agravamento do estar condicionado. O condicionamento não é somente pelo trabalho nas sociedades neoliberais, e sim pela cultura organizada por tais sociedades.

6. Ou seja, a liberdade que viria de uma cultura autônoma é aparência, se o que existe é uma versão de liberdade que nunca chega a ser sem condicionantes, exatamente porque a cultura passa à condição de necessidade. A “necessidade por cultura” a fim de ser diferente é o elemento postulável pelo mercado de bens culturais, enquanto permanece a antiga configuração que diz de trabalho alienado. Portanto, a cultura que é supostamente autônoma nada mais é do que uma cultura ideológica.

7. A saída é: faz-se necessário criar a “realidade histórica do pensamento”. A contradição das sociedades neoliberais está assente no fato de que a necessidade de luta por sobrevivência – imposta por tais sociedades – pode ser extinta. Papa Francisco diz que o dinheiro gasto em militarismo pode ser revertido a fim de acabar com a fome. O capitalismo segue impondo a necessidade sem que tenha inteireza ideológica a fim de dizer como a existência deve ser.

8. Se o pensamento avançou e a realidade permanece estagnada, há uma preliminar inversão entre pensamento e realidade: cria-se o pensamento – crítico – enquanto realidade histórica, para que sirva de régua civilizatória diante da barbárie, até que a realidade avance até este pensamento voltado para o que é coletivo. A “realidade histórica do pensamento” é um proceder de vanguarda, inscrito em contexto histórico que enseja a volta do pensamento à frente de realidade historicamente conformada. Somente haverá cultura se houver utopia.

A realidade histórica do pensamento é o que há após a cultura, enquanto procedimento de vanguarda que é incondicionado, em lugar de cultura que foi perdida enquanto possibilidade de autonomia. A realidade histórica do pensamento é aberta a receber o aporte de expressões que não são mais definíveis como objetos culturais, porque o contexto que há é pós-cultural. Portanto, a realidade histórica do pensamento avança até o limite do que não é definível, e tal indefinição abre o tempo histórico em nome do que não mais é tempo.

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