Resenha de livro de Perry Anderson sobre o Brasil

O que aconteceu desde o início da pandemia no Brasil não foi esperado pelo historiador norte-americano Perry Anderson. No livro “Brasil à parte: 1964-2019”, o autor lança o olhar a período de tempo marcado por uma crise que levou os militares ao poder – em 1964 – e outra crise que levou os militares ao poder – em 2018. A história deste país é conhecida por todos; se não é, compreendê-la é necessário de modo que tal compreensão faça com que a tragédia não seja repetível. Foi dito pela grande imprensa que a pandemia de COVID-19 escancarou a inaptidão dos militares quando o assunto é servir ao povo. A imagem de um exército que na ditadura civil-empresarial-militar foi “forte” a fim de livrar o país do suposto inimigo – o comunismo –, é imagem perdida em função das mortes provocadas por um governo de ideologia autoritária. O fato é que Perry Anderson ainda escreverá sobre o Brasil pós-bolsonarismo; enquanto estivermos à espera da escrita de tal autor, precisa-se ler sobre o passado do país, prescientes de que a luta contra o fascismo não acabará nas eleições – se este é fenômeno arraigado na subjetividade.

O fato incontornável é este: a pandemia de COVID-19 pôs em evidência o descompromisso do atual governo do Brasil diante da população do país. Os efeitos de tal descompromisso recaíram sobre as populações pobres – primeiro, com um auxílio emergencial que foi nitidamente incapaz de sanar as necessidades básicas de existência, sobretudo às populações que precisaram de ajuda; depois, a evidente incompetência de agir a favor do povo em termos comunicativos que dessem informações básicas acerca de como ter proteção durante a pandemia; por fim, a impossibilidade de coordenar o sistema de saúde com vistas a promover a decisiva prática médica de salvar vidas. Além disto, existiram as declarações do presidente Jair Bolsonaro, ofensivas à dignidade de povo que desde o limiar de 2020 viveu sob o signo do medo de morrer. Aos que morreram, sequer sinais de luto oficial – assim é um governo fascista.

Perry Anderson analisa nesta obra o que foi por completo diferente do bolsonarismo: o lulismo. Segundo o autor norte-americano, durante tal período existiram possibilidades de emancipação social, porém, tal emancipação ocorreu dentro de um modelo econômico neoliberal, de modo que poderíamos objetar: emancipação social para quem? Se as camadas mais pobres da população puderam ascender socialmente, e quando não puderam tais camadas receberam um programa social sem precedentes – o Bolsa Família –, a pergunta é: por que os indicadores que afirmam a saída da miséria – uma vez que Perry Anderson diz que houve emancipação social –, foram indicadores que no governo de Jair Bolsonaro retornaram ao nível do período pré-lulismo? Se a argumentação deste texto sugere que, com emancipação social, não haveria como ter o retorno da miséria, não caíremos nesta resposta tola.

Há motivos que podem servir de explicação ao que foi exposto: uma emancipação que ocorre nos limites de um capitalismo neoliberal é falsa porque o contexto histórico de tal modelo econômico impõe um estado de crise duradoura. Uma seguinte explicação é o fato de que o bolsonarismo está assente em ideologia de extrema-direita, e foi dito pelo filósofo Max Horkheimer que um governo opressor – tal como são os governos de extrema-direita – não é questionável pelos que detém o poder econômico, se os lucros são mantidos. O bolsonarismo oferece ao capital o que é da “necessidade” de tal sistema. À parte o fato de que a emancipação dentro do neoliberalismo pode ter mudado a vida de muitas famílias, uma emancipação social que desfaça o poder de tal sistema seria decisiva, exatamente porque o povo brasileiro exige existências condizentes com a essência de um povo trabalhador, que é historicamente explorado pela potência dominante no continente, os EUA.

Editado pela Boitempo, o livro de Perry Anderson faz análise objetiva da história do país desde 1964, e tal análise contém passagens como esta: “Vindo ele mesmo da mais profunda pobreza do Brasil, a ascensão de Lula de operário no chão da fábrica a líder do país nunca foi apenas um triunfo individual: o que a tornou possível foi o mais notável movimento sindicalista do último terço do século, criando o primeiro – e até agora único – partido político moderno do Brasil, que se tornou o veículo de sua escalada.” Além de trechos emocionantes como este, o livro contém análise minuciosa da disputa pelo poder – uma disputa “individualista” no sentido mais cru do termo –, além de sintetizar o que foi a história deste país durante 55 anos. Anderson integra o conselho editorial da New Left Review, prestigiosa publicação acadêmica cujo tema é a política – e seu livro é permanente.

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