18 de janeiro

Acordei às 7h15. Na ausência de praia, fui direto ao chuveiro. Depois, transpus – deste caderno para o computador – a entrada do dia 4 de janeiro. Nesta segunda parte da manhã, lerei Adorno a fim de corrigir alguns escritos, e isto será difícil porque estou ansioso, sem que eu saiba o porquê de tal ansiedade.

12h. Consertei o texto que escrevi. Interessante: quando os escritores são bons, não cometem falhas.

Ideia para narrativa: um personagem que tem doença incurável exerce o pensamento livre; ao redor de si, não encontra gestos de ajuda, e o que ouve de todos é para que tenha trabalho, um tipo específico de trabalho, aquele que não depende do pensamento; entretanto, é no pensamento que o personagem encontra a paixão em si, tal é o princípio de que parte a fim de expressar sentimentos para com o próximo; enfrenta momentos de solidão, uma solidão extrema, que faz com que o personagem pense que não há possibilidades; em tais madrugadas de solidão em exagero, encontra o silêncio, e é a partir deste silêncio que escreve os pensamentos que tem; pensa continuamente em amores do passado: em uma madrugada destas, vê o filme De volta para o futuro, porque não havia o que fazer, e expressa o desejo de voltar atrás, sendo que esta volta é, simplesmente, impossível; ao invés de pensar em política – pois que a realidade histórica do país é difícil –, concentra esforços na arte literária; a cada manhã, quando acorda, tem lembranças ruins que perseguem, e, em uma dentre estas manhãs, cai uma tempestade que contempla da janela; compra um carro e participa de competições arriscadas, depois que um amor do presente, um amor complexo, começou e encontrou fim momentâneo; em uma destas competições, quase morre; na noite após o acidente, tem um sonho: construir uma família, e mantém tal sonho em segredo; participando intensamente de competições, ganha dinheiro, e com tal dinheiro inicia uma coleção de vinis; faz uma viagem ao oriente, depois de juntar dinheiro, e reencontra um amigo de infância, ao passo que a mulher por quem sente amor ficou no ocidente; ao retornar para seu país de origem, sua casa está vazia, vai até a mesa da cozinha e acha um bilhete, o bilhete diz do término do relacionamento que mantém; arruma um trabalho com carteira assinada, está solteiro e vive sob o signo do trauma em função da perda do amor, e atravessa as horas livres compondo canções; aceita a existência tal como foi e é, comete suicídio. No que restou dos pertences deste jovem poeta, há uma carta que não foi lida por si, e em tal carta havia o conteúdo a impedir o fim.

Ricardo Piglia: “O mistério seria um elemento que não é entendido porque não tem explicação, ou que pelo menos não a tem dentro da lógica da razão ou do conceito de realidade que está dado e dentro da qual nos movemos.” Por que o personagem do conto acima, com o peso da existência que conduz tal personagem ao fim, não anteciparia este fim? A viagem que faz ao oriente, com esforço, faz a fim de encontrar um antigo amigo, amante do passado, é quando, depois de realizar isto, sente que cumpriu o objetivo que tinha nesta existência. Não há explicação para a fissura que o personagem encontra: depois de cumprir isto que é um objetivo (embora não use este termo), o passado encontra encerramento, e, no futuro que para si não pode acontecer, há o vazio a despeito do preenchimento que o passado do personagem carrega consigo; é, portanto, como se o futuro fosse o fim da realidade, a partir do detalhe que é a carta que, não encontrando o destinatário que é o personagem, é insignificante. O segredo, segundo Ricardo Piglia, é um vazio de significado. Poderíamos imaginar: nesta carta que parece olvidada, o que está escrito? A despeito do conteúdo da carta, o personagem está em vias de morrer: o que é a linguagem diante do fim?

O polímata no âmbito religioso é o que acredita no prolongamento da existência presente, diante do fim.

Outra versão do conto anterior: o personagem está paralisado em cadeira de rodas, e de resto tem saúde; aos vinte e nove anos – na cadeira de rodas desde os 22 anos –, tem amizades em profusão, faz uso de drogas lícitas e ilícitas, é casado e tem filhos; apesar de vida que é perfeita – porque aprendeu a superar as limitações de sua existência –, questiona a si sobre o que fazer, diante de uma realidade histórico-política que corresponde a declínio incontornável; percebe que, no decurso dos anos, desde o acidente, fez-se intelectual; nas redes sociais, em vez de publicar excessivamente, mantém o silêncio, aprendendo com o que lê, e imagina que chegará a hora de expressar o que aprendeu; anos à frente, quando percebe que o conhecimento que acumulou é em vão, porque a realidade está em transformação imposta, tem a lágrima verdadeira; em um sonho, lembra do parque municipal que visitou quando da infância, e, ao anotar este sonho no diário, pensa no futuro ao invés de querer voltar no tempo, de modo que sentirá angústia ao passear pela cidade; a fim de esquecer o que for, lembra de uma namorada que trabalhava no correio, e das cartas cujo remetente e destinatário eram preenchidos à mão, antes do email; em um dia, o personagem escreve uma carta à namorada, despedindo-se porque viajará de carro pelo interior do país, a fim de realizar documentário sobre tema secreto; não entregará a carta que termina o relacionamento, tímido, de modo que à namorada parecerá que o personagem fugiu, e é em tal viagem que sofrerá o acidente registrado por sua câmera; no hospital, não sabe o que dizer nem o que pensar quando vê a namorada; foi de tal forma que o relacionamento acabou; a despeito do conteúdo de tais memórias, a lembrança da mulher que amou serve de alento no presente imediato; ao voltar para casa, neste dia, vê os filhos melancolicamente, porque a inocência de tais crianças é temporal, isto, à medida que conhecerem a realidade do futuro; na manhã seguinte, cai uma tempestade que vê da janela; quando a chuva passa, pensa em sua atual condição, ao ouvir uma música: é tão estranho, os bons morrem jovens; à noite, pensa em suicídio; a mulher com quem é casado, vendo o personagem na varanda do apartamento, olhando fixo para o chão, vai até a biblioteca e traz um livro – um livro impublicável –, a seguir diz que escreveu a biografia do personagem; o personagem e a mulher com quem é casado sorriem, o sorriso é a lembrança da felicidade, e a felicidade somente é possível se for em dupla; na manhã seguinte, avisam aos filhos que ficarão fora por um tempo, partem em viagem a lugar incógnito.

Ricardo Piglia: “O volume deteriorado porém invicto era este que estou escrevendo.” Por que o personagem do conto acima, com o peso da existência que conduz tal personagem ao fim, não anteciparia tal fim? A viagem, que o personagem e a mulher com quem é casado fazem, é a fim de receber um ocidental com quem tal personagem manteve relação erótica no passado. Após a viagem, enquanto para o personagem ocidental a existência foi preenchida e passou ao vazio, o personagem e a mulher com quem é casado, e que vivem no oriente, não pensam em termos de preenchimento e vazio, porque a carta que escreveram ao personagem ocidental contém a revelação de um segredo, e, se o segredo é um vazio de significado, o sentimento de quem revela o segredo passa do preenchimento ao vazio, e do vazio ao preenchimento, em contínuas oscilações. É como se este limite do ir e vir fosse perdido a cada ida e a cada volta, e desfazendo a realidade sem precisar de categorias temporais.

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