17 de janeiro

A fim de voltar ao tema deste diário a este mês, o seguinte: Freud, segundo Peter Burke, foi polímata. Querendo compreender os mecanismos interiores que fazem o mistério de nós, a psicologia buscou fontes na literatura – que é a existência em imediato – e fez-se psicanálise. Sei que dos escritos de Freud as pessoas leem como se fossem literatura, isto é de tal forma porque o autor tinha de escrever com precisão, para não ser incompreendido. À época de sua existência, Freud encontrou demasiadas barreiras, a partir deste pensamento que existiu para dar às pessoas o conhecimento do que são – e da realidade. Irei até a estante, escolherei obra de Freud ao acaso e citarei um trecho, este: “estou consciente de que todo ouvinte ou leitor, em sua mente, ordena, resume e simplifica tudo o que lhe é apresentado, e de tudo isto seleciona o que gostaria de reter.” Simplificar é a palavra que eu gostaria de assinalar. Disse, em entrada anterior, que este diário ficaria complexo, e ainda ontem eu pensava em usar de simplicidade, de modo a pensar questões que não são usuais. Este, então, é o desafio.

“A era do ‘homem de letras’”, segundo a delimitação feita por Peter Burke, vai de 1700 a 1850. No início do século 18, as coisas estavam ficando menos favoráveis para os polímatas. “Os estudiosos têm o hábito de reclamar do declínio do saber”, diz Burke, e penso que isto acontece porque, na cultura ocidental, os intelectuais entram em conflito na busca por prestígio; esta seria uma primeira conclusão, que não sinto ser exata. Estamos falando do século 18, e neste século o saber científico não era determinadamente configurado, de modo que as controvérsias existiam porque os estudiosos tinham dificuldade em verificar a verdade de um conhecimento; esta seria uma segunda conclusão, que não sinto ser exata. Meu pensamento tende a pensar a época de minha existência. O século 21, portanto, é diferente: temos condições de verificar hipóteses, e tais hipóteses são negativadas porque há o âmbito econômico-ideológico, querendo-se pétreo. Alexandre Marques Rodrigues tem um livro cujo nome é Entropia e que diz da irreversibilidade de um sistema quando as condições do sistema é o fim inevitável. O que predomina no século 18, porém, é a vontade de fazer permanecer o mistério; Kircher, um estudioso que existiu em tal século, foi criticado pela pretensão de saber ler hieróglifos egípcios. O que acontece no século 18, em realidade, é o detrimento do pedantismo em nome de um germe do que chamaríamos, hoje, democratização do conhecimento. Os famosos salões passaram à existência: “forma de sociabilidade institucionalizada para ambos os sexos que ajudou a moldar o estilo da fala, bem como o estilo da escrita dos participantes”. Segundo Peter Burke, “esperava-se que os estudiosos apresentassem seu trabalho de forma clara e elegante ao público letrado em geral.” A era do homem de letras, indo do início do século 18 até o final do século 19, define assim o indivíduo que existiu nesta temporalidade: “além de escrever poemas, peças ou romances, fazia contribuições para as humanidades e mostrava interesse pelas ciências naturais.” A tarde está quente, em entrada à frente pretendo escrever sobre a mulher de letras, que o autor situou, no livro, em parte posterior.

Em cerca de 15 minutos, o esboço ficou perfeito.

Na Paris do século 18, segundo Peter Burke, as mulheres de letras eram entusiastas e estudiosas. “A amplitude de interesses era essencial para o sucesso de uma anfitriã [a mulher que organiza os salões], ao mesmo passo que os salões ampliavam o saber dos homens e mulheres que os frenquentavam”. Interessante ao tempo que vivemos: Lady Mary Wortley Montagu, em idade avançada por volta dos anos 1750, introduziu a vacina contra a varíola na Europa ocidental. Além disto, pensou a educação e a posição das mulheres na sociedade. À parte a Inglaterra, é na Itália que nasceu Maria Gaetana Agnesi, em 1718: defendeu 191 teses sobre lógica, mecânica, química, botânica, etc. Agnesi, nomeada professora de matemática em Bolonha, não chega a assumir o cargo, dedicando o tempo à teologia e ao trabalho de caridade. A enciclopédia virtual colaborativa diz: Gaetana compôs um discurso em latim para um encontro acadêmico, isto, aos 9 anos de idade, tendo por tema a inserção das mulheres na educação superior. Agnesi é definida pelo termo teóloga, e foi Borges o autor que definiu a teologia como a área de conhecimento de maior expressão. A realidade do ocidente regrediu, sendo que isto não diz do espaço onde o conhecimento acontece, de modo que poderíamos hablar, com Bolaño, de uma universidade desconhecida.

É interessante pensar que Freud é um homem de letras fora do período delimitado por Burke, daí os enfrentamentos do pai da psicanálise.

Está difícil. Às vezes penso que é tal qual Cazuza diz: as ideias não correspondem aos fatos. A fim de encontrar significado – e esta não seria a palavra que define um subversivo literário –, meu pensamento procura Sérgio Sant’Anna. Sérgio diz que escreveu algumas crônicas, acontece que este autor não praticava uma estética para as massas. Literatura em país do futebol, e a ilusão de que, sendo escritor, terei leitores. Continuarei tentando uma escrita simples, a fim de que tenham compreensão, diante dos meus escritos, os meus leitores.

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