Domingo 16 de janeiro

Eu não sei que idade eu tinha, era a infância, e o trauma foi profundo. Eu queria um Playstation 1, a fim de jogar futebol, porque o gráfico era melhor, e meus pais não tinham dinheiro. Achamos um anúncio no jornal, sobre um video-game completo, e fomos até a Penha, onde morava o sério vendedor. Não sabíamos que era em uma favela – até hoje não sei o nome da favela que era –, e subimos o morro inocentemente. Eu fazia curso de inglês, até hoje não sei falar este idioma, minha vida era feliz, e, depois deste dia, não lembro o que aconteceu comigo. Subimos e vi uma roda de traficantes, um empunhava um CD supostamente de jogos enquanto o outro empunhava um fuzil. Pouco antes de chegarmos à roda onde os traficantes estavam, meu pai segurou a minha mão e disse para eu ficar em silêncio. Se eu fosse menos esperto, teria gritado e apontado para o CD de jogos, acontece que eu vi o fuzil – e a infância não combina com violência. Minha mãe, enquanto eu e meu pai atravessávamos a roda de traficantes, ficou no sopé do morro. Foi confusa a forma como chegamos ao local onde os traficantes vendiam os objetos, perguntamos a estudantes, na rua, e os estudantes não responderam. Éramos uma família. Na volta, foi a partir daí que meu pai agravou o quadro de epilepsia.

Tarde e noite na casa da minha avó. Dia de sol, depois ventania e chuva. Fiquei ouvindo música, fumando este que é meu último maço de cigarros – estou decidido a parar – e pensando em questões desimportantes. A filha da minha prima E., a G., é linda, nasceu em agosto e, tal qual eu, é leonina. Depois, em torno das 18h, minha madrinha e meu padrinho apareceram. Conversamos sobre banalidades, a fim de deixar o tempo passar, e este tempo compôs um dos melhores momentos da minha existência. C., minha prima, está ansiosa pelo primeiro show, e reclamou que segunda-feira recomeça a rotina de trabalho, enquanto trabalhar era o que eu mais queria. Escrever é trabalho, sendo que não é remunerado, a grosso modo estou em situação de escravidão. A noite veio, lanchamos. No carro do motorista particular, na volta, tocou Adriana Calcanhotto, e somente eu sei em quem pensei, enquanto tocava. Chovia neste retorno para casa, os pingos de chuva atravessando os faróis dos carros, o asfalto molhado, passagens brilhantes, cenários perfeitos, São João de Meriti.

Sexta-feira passada, futebol no campo ao lado. Passe rápido entre dois marcadores. Domínio no peito, passe por elevação. Domínio, controle de bola, lançamento em semi-altura, com curva. Lançamento, alto, do centro da intermediária até o centro da área. Eis o camisa 8.

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