15 de janeiro

O que é a minha estética? Sem falar de mim, direi de um personagem bíblico que fundou a tradição religiosa monoteísta: Moisés. Anacronicamente, isto é, com palavras de hoje, chamaríamos Moisés de vanguardista. A vanguarda situa a si à frente do tempo, unicamente porque o tempo é o que dá transformações à realidade, e é assim que a vanguarda desfaz o tempo que quer constranger. Compreendendo Moisés laicamente, isto é, sem o imperativo religioso, tal homem deu forma a um povo que não existia – qualquer escrita dá forma a um povo que não existe, quando do momento de tal escrita. Pensando em uma realidade que está em transformação, pode parecer que as possibilidades terminaram, e o que a vanguarda faz é colocar o que é à frente do tempo, a fim de pensar o que não é tempo. Tendo o exemplo de Moisés enquanto vanguardista, e considerando uma realidade em transformação, é a partir do exemplo de Moisés que a vanguarda pode retornar ao presente que vivemos (até por inspiração do judaísmo libertário). Agora, posso falar de mim: sou um escritor de vanguarda (a fim de citar exemplo, Rubem Fonseca foi escritor de vanguarda), tendo o anteparo de sabedorias antigas, e fincado no presente.

A tendência deste diário é adquirir forma complexa, e é possível que esteja complexo desde o início. Acontece que a arte é o que desafia nossas compreensões supostamente normais, e é a partir de formas complexas que evoluímos.

Declaro meu amor a este país. O país do futebol. Acordei em torno das 8h, fiz meu café da manhã, fumei metade de um cigarro e saí a fim de caminhar. Solidão atravessa. Lancei um site de modo a explicitar meu diário, e quero refletir sobre o significado da autoexposição. Em 2016, escrevi um diário em secreto, era quando eu usava Facebook, e li alguém postar o seguinte: os melhores diários são aqueles escritos para não serem lidos. O diário que escrevo a este momento é desafiante: terá leitores, e vou levar à frente a vontade de escrever o melhor diário possível, e, em certas reflexões, impossível. No domingo após o Natal de 2021, reencontrei meu amigo de infância, o R., e conversamos lenta e longamente, trocando novidades sobre nossas vidas. A realidade não está tranquila, pensei que estivesse e quase anotei isto, induzido pelos meus sentidos a este momento, no interior de um quarto confortável. A pandemia está aí, esperamos que chegando ao fim, de modo a que este fim aconteça e possamos fazer com que contatos virtuais sejam reais. Pretendo reencontrar R. e conversar sobre qualquer assunto, exatamente porque meu amigo conhece a estrutura de um conto literário: na linha que termina a estória, a revelação surpreendente.

Neste início de tarde aparentemente tranquilo, estou lendo um ensaio de Silviano Santiago, na verdade relendo, e o que o autor diz é: “O texto da memória transforma o que parecia diferente e múltiplo no igual.” O porém dialético é a definição de “etnocentrismo” por William G. Sumner, em 1906: “Cada grupo pensa que os seus próprios costumes são os únicos bons, e, se observa que outros grupos têm outros costumes, estes provocam o seu desdém.” Benedict Anderson acrescenta: “Nenhuma nação se imagina coextensiva com a humanidade.” A síntese é de Silviano Santiago: “Ao perder a condição utópica de nação – imaginada apenas pela sua elite intelectual, política e empresarial, repitamos –, o Estado Nacional passa a exigir uma reconfiguração cosmopolita, que contemple tanto os seus novos moradores quanto os seus velhos habitantes marginalizados pelo processo histórico.” Quando penso em memória – que transforma o diferente em igual –, lembro da minha infância no campo da Vila São João, e lembro de ontem, quando brinquei de futebol neste campo. O Estado Nacional, no que é exposto por Silviano Santiago, entrando no cosmopolitismo, dá a possibilidade de que sejamos polímatas da memória.

Pensar a relação entre tristeza e medo. Medo, para mim, era o medo de sair à rua. Porque estou triste, consigo sair à rua tranquilamente, e nos piores momentos, em anos recentes, cheguei a acreditar que não mais sairia de casa. O que sinto é melancolia ou tristeza?

Silviano Santiago diz o seguinte dos modernistas brasileiros: os modernistas brasileiros, desde a década de 20, são extraordinários no que consiste a desenvolver o cosmopolitismo no Brasil, e isto é, de fato, admirável.

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