14 de janeiro

Este diário terá um tema, retirado de livro específico, a cada mês. Nas entradas recentes, escrevi sobre o pensamento chinês, a fim de criar pontos de contato entre tal pensamento e os polímatas, estes, que fazem o tema de janeiro. Estamos em 2022, e foi há exatos 100 anos que aconteceu a Semana de Arte Moderna em São Paulo, de modo que o tema de março será sobre a modernidade brasileira e, especialmente, a modernidade indo-afro-latino-americana. A fim de antecipar algo acerca do tema do mês de março, escreverei algumas linhas, hoje, sobre os modernos. De início, gostaria de ressaltar o descompasso entre modernidade e modernistas: para que acontecesse modernidade plena no Brasil, uma revolução de esquerda deveria ter encontrado êxito, isto não aconteceu, e assim os modernistas ficaram deslocados no tempo. Não havendo revolução, o que restou foram as transformações no âmbito da cultura – que não teria este nome se a revolução acontecesse, unicamente porque a arte seria par da existência –, e de tais transformações no âmbito da cultura os modernistas foram parte, com expressões que chegam até o presente, significando a nós.

Para mim, é difícil escrever sobre o Brasil a este momento histórico específico, quando a doeça coletiva – segundo dizem os especialistas – é a depressão. O Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade, tem a influência de pensadores europeus essenciais – entre eles, Rousseau, Marx, Freud – e faz o esforço de sintetizar tais autores, a fim de que sejam compreendidos no sítio brasileiro. Causa espanto o fato de Caetano Veloso, eminente modernista da década de 1960, vir a 2022 com a defesa do liberalismo econômico, contraditando Marx, ao passo que contradita o manifesto de Oswald de Andrade. Meus heróis não são estes. Meus heróis morreram de overdose, antes que entrassem em âmbito narcísico, meus heróis morreram jovens. Apesar disto, dou sentido ao que os mestres taoístas dizem sobre a longevidade. É inevitável, porém, que os tempos passem, dentro do tempo entremos em transformações, e fiquemos contraditórios feito Caetano Veloso, sendo que isto não é o que farei. Compreendo Caetano Veloso, e nego o que tal artista é em sua ideologia, sem deixar de reconhecer o valor de tal artista enquanto compositor de músicas ligeiras, que dão significado ao amor. No decurso de 2022, serão lançados livros sobre o modernismo e a modernidade no Brasil, e lerei mais sobre o assunto. Hoje, pretendo escrever algumas linhas sobre as vanguardas indo-afro-latino-americanas, e antes gostaria de reiterar isto: não é a imposição da modernidade no sítio que criará, no povo brasileiro, uma “consciência moderna”. Em tempos de regressão ao âmbito religioso – e o que pensar de religiosos inverossímeis que pretendem ser modernos? –, o bálsamo é o pensamento longevo, tal como o pensamento chinês, de sabedoria singular. Sim: a vanguarda é sempre o mais distante no tempo, quando o que parece velho é o que em outras épocas foi novo. Manhã lenta, vou fumar um cigarro, depois continuar os estudos. A questão que faço é: precisamos de uma consciência moderna?

Bruno Latour diz, em livro sobre os modernos: “é preciso que não haja nenhum fluxo temporal coerente limitando nossa liberdade de escolha”. A fim de compreender o que é moderno, dar a linguagem ao tempo – porque a linguagem cria interrupções diante do que é linear –, sob a seguinte proposição: o tempo conjugado à linguagem é um não-tempo. Eu disse “tempo” e disse “não-tempo”. A passagem entre ambos ocorre a partir da linguagem, com estes verbos, que nesta sequência aparecem no meu primeiro romance: idealizar, agir, realizar e sentir – sentir, idealizar, agir e realizar. A partir deste ciclo – em cujo centro está o sentimento –, há um contínuo processo de tornar-se moderno, primeiro, e perder o moderno, depois. Isto acontece exatamente porque tal ciclo põe em relação a inteligência e a sensibilidade, e, quando o ciclo termina e recomeça, a estabilidade do que fez-se moderno é perdida em nome do contínuo processo de não absolutizar-se. Encontro a ausência de tempo a definir o que sou, e isto consiste na liberdade com que definir-se.

Conversei com A. sobre meu pensamento acerca da Geração Alpha. A. é um dialético negativo, isto é, tende a negativar o conhecimento que não é condizente ao que pensa, tal é a barreira que as acepções vanguardistas enfrentam. A transformação da temporalidade presente é o que dá continuidade às transformações no âmbito do pensamento, e, se inserirmos os verbos no interior deste tempo em transformação, o tempo perde a condição de ser tempo que impõe constrições.

A indústria cultural quer silenciar minha voz. É em função disto que compartilho este diário, a fim de encontrar o meu espaço, em contexto histórico que impõe a competição. Não é da minha vontade, isto, a competição. A minha vontade é a busca pela frase perfeita, e é a partir disto que persisto.

O chileno Vicente Huidobro, artista de vanguarda, expressa em 1921 o seguinte: que esta era época de entusiasmo artístico; que os problemas estéticos estavam à moda; exige clareza na expressão; diz que devemos ser próximos da filosofia científica, e não da metafísica; e esquematiza as fases da arte. Este escrito é um manifesto, e o seguinte fez com que eu ficasse em frenesi: a arte que harmoniza inteligência e sensibilidade: começa-se idealizando, termina-se sentindo, e isto é ciclo. Lendo este manifesto, e dentro da minha percepção sobre o passado histórico, enxergo em tal manifesto a tendência de impor sínteses; e, pensando na forma com que tal manifesto foi escrito, encontro clareza na linguagem, uma clareza que está presente no estilo de escrita próprio a 2022. O que concluo é isto: a arte contemporânea – inserindo, aqui, o contexto histórico –, é a arte de um capitalismo pós-tardio, e o término parece ser este: o que tínhamos para escrever já foi escrito, é o que diz o pensamento de Huidobro. A exata ilusão está no fato de que o capitalismo pós-tardio, com a atual revolução tecnocientífica, deu transformações à realidade e criou a terceira natureza. O que Vicente Huidobro diz é o que traz alento: a diferença entre a verdade da vida e a verdade da arte. Traduzindo: a diferença entre um capitalismo que quer a estabilidade – a estabilidade na crise – e uma arte conflitante. (Assim como separar real e realidade é necessário, é necessário separar crise e conflito, a fim de que o conflito no âmbito artístico seja qualitativamente diferente da crise que está na realidade.) O fato é que o capitalismo pós-tardio não é estável, e aqui continuo com Vicente Huidobro: a vida existe anteriormente ao artista, e a arte é posterior ao artista que produz. Segundo Vladimir Safatle, filósofo contemporâneo, a arte induz a sensibilidade, isto é, o livro mexe com os sentidos e move ao que não tem devir no estar existindo. De modo que, cruzando Safatle com Huidobro, encontro isto: neste contexto específico, de transformação acelerada, há uma fenda, e é em tal contexto que a arte é a anterioridade a produzir a existência – a existência a partir da escrita. Vicente Huidobro conclui dizendo isto: “em todas as criações humanas se produziu uma relação exatamente parelha à relação natural, obedecendo sempre as mesmas leis de adaptação ao meio.” Com a terceira natureza – realidade virtual – regredimos ao âmbito da adaptação a este ambiente inédito, e a forma de adaptar-se a isto é explicitar a diferença entre real e virtual – o virtual não é o real – e propor subjetivações que tenham por interesse o que é intelectual, enquanto princípio de existência que é plena em sentimentos.

Saio para caminhar às 13h. Sol forte. Retorno às 14h. É caminhando e escrevendo que os neurônios são produzidos.

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