antecipação do dia 1 de fevereiro

A proposta do mês de fevereiro é pôr Goethe e Kafka em relação a partir dos diários que retratam eles. (Com o adendo de que o diário de Goethe não é escrito por si. O título diz: Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida. O autor: Johann Peter Eckermann.) Deixarei o acaso dizer aonde ir – abrir os livros em página aleatória – e escreverei sobre o que eles disseram, nas épocas onde ainda não eram clássicos.

Eckermann: “Um grande conhecedor compreende um quadro, sabe estabelecer relações entre as diversas partes com o universo que lhe é conhecido, e para ele tanto o todo quanto as partes são vivas. Ele também não tem preferência por essa ou aquela parte isolada, ele não se pergunta se uma face é feia ou bela, se um ponto é claro ou escuro, ele apenas se pergunta se tudo está em seu lugar e de acordo com a lei e a ordem.”

Kafka: “O cheiro de gasolina de um automóvel proveniente do teatro me chama a atenção para como é visível a bela vida doméstica que aguarda aqueles frequentadores que agora vêm em minha direção e terminam de ajeitar seu casacos e o binóculo que trazem pendurado (ainda que iluminado por uma única vela, essa domesticidade é quanto basta antes de ir dormir); mas como parece também que o teatro os manda para casa como pessoas de importância secundária, os quais, pela última vez, viram baixar o pano à sua frente e, às costas, se abrirem as portas por onde haviam entrado antes de começar o espetáculo ou durante o primeiro ato, altivas em razão de alguma preocupação ridícula.”

Em Eckermann, o que vemos é uma forma de conhecimento pertencente ao século 19. Em Kafka, o que vemos é o limiar do século 20. Poderíamos dizer que o texto de Eckermann é a teoria deste trecho escrito por Kafka. O trecho de Kafka possui duas “partes”; na primeira, há o comentário positivo, e na segunda, o negativo. Ao invés de haver a preferência por alguma entre tais partes, Kafka enxerga o que é bom e o que é ruim na existência deste público de teatro, àquela época existente na cidade de Praga. Quando Kafka diz que a domesticidade é bela porque é o que basta antes de dormir, o que vemos nesta escrita é a expressão de um desejo, e este é o desejo que, à figura atormentada dos escritores, é compreensível. O artista escolhe entre a vida e a obra, e sofre por não ter o cotidiano que é aprazível às classes médias. A obra de Kafka é a subjetividade de Kafka, sendo que tal obra diz de uma subjetividade em negativo, porque parece não haver – à parte o diário – um desejo positivo por existência que seja aquela que à época havia. Meu pensamento vai até a obra O processo: expulsão do conhecido ao desconhecido enquanto síntese. Kafka estabeleceu em tal obra a relação dialética entre conhecido e desconhecido, e isto é o que atinge as certezas absolutas. Em Kafka, porém, não há ordem tal como disse o espírito de Eckermann; há mistério, e o mistério imita o Universo.

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