Quinta-feira 13 de janeiro

Ler sobre o pensamento chinês induz a sensibilidade a querer a sabedoria – é o que acontece comigo. “Buscam a santidade com tamanho desinteresse que não têm nem a ideia de beneficiar a outrem nem a de beneficiar a si mesmos de algum modo.” Esta citação define os antigos mestres taoístas. A sociedade da transparência – que vivemos neste presente –, segundo o filósofo Byung-Chul Han, é baseada no controle em virtude do desaparecimento da confiança. Considerando mestres taoístas que viveram em tempos remotos, e considerando a sociedade da transparência, a pergunta é: o que é buscar a santidade nos dias recentes? O santo assume a condição de santo abertamente, porque pretende dar aos próximos a confiança que tem em si. O polímata transformativo – esta espécime que quer exercer a santidade – é o que reconhece as condições expostas pelo tempo que vivemos, e, querendo exercer o que aprendeu com mestres do passado, revela o que é ao pequeno séquito que acompanha a solidão acontecendo; o mestre taoísta destes tempos é o que tem a subjetividade em devir, porque precisa ter confiança e dar confiança, e aí, nesta civilização em desaparecimento, contornar tal desaparecer (lembremos: o ocidente continua o oriente e vivemos tempos de globalização; dizer do desaparecimento de civilização é dizer do desaparecimento deste planeta). “A Santidade, para os neotaoístas, é essencialmente a arte de não morrer”, de modo que é possível fazer a seguinte inferência: o neotaoísmo pode ser um pensamento que apraz ao polímata, exatamente porque a condição do estar plenamente vivo é a primeira a fim de que conhecimentos existam.

Continuei a leitura de Marcel Granet, atento aos detalhes; o autor diz: “a santidade não está reservada aos homens” – esta passagem é óbvia; quer dizer que o santo não é tal qual os demais –, acontece que o detalhe a que faço referência tem a ver com uma passagem seguinte, esta: “Os ‘Pais’ do taoísmo”. A biografia dos fundadores do taoísmo é desconhecida, e uma definição da Wikipedia diz de tal doutrina: o Tao “está por trás de tudo que existe”. As mulheres são a fonte da existência – estão por trás de tudo que existe –, a imagem em pedra de Lao-Tsé, o fundador do taoísmo, é masculina, e o taoísmo é religião que concede âmbito especial às mulheres. A pergunta, cuja resposta parece exata, é: os “Pais” do taoísmo são, também, mulheres? A partir das características do pensamento taoísta, sim. Ao conter, em igualdade, o Yin e o Yang, o taoísmo é uma religião polímata.

Acordei antes das 7h, fiz meu café e fumei um cigarro, o último do maço, depois passei à escrita imediatamente. Não sinto dores de cabeça, e o sono, induzido por rivotril, recuperou minhas forças, sendo que não lembro dos sonhos que tive, e sinto falta disto. Estou pensando em prontificar alguns esboços do livro – à parte o diário, a escrita deste livro é o meu verdadeiro trabalho – e dar as horas que vêm à tranquilidade, a partir da leitura do livro de Marcel Granet, sobre o pensamento chinês.

O taoísmo, segundo Marcel Granet, é uma espécie de quietismo naturalista. “Conhecer o outro é apenas ciência, conhecer a si mesmo é compreender.” Esta passagem é interessante. Na tradição de filósofos ocidentais, o conhecimento de si leva a conhecer o que a realidade é. Depois que conheço a realidade exterior que está em minha interioridade, o próximo passo é: confrontar o que a realidade fez comigo, alcançar um silêncio que corresponde a esvaziar-se da exterioridade, e aí, a partir de conteúdos discerníveis, preencher-se em acordo ao bem. Decerto que isto não é fácil quando estamos inseridos em contexto histórico que impõe a desumanização, e, se é difícil, enxergo isto como proposta.

O crepúsculo – escrevo no semi-escuro – é a hora mais sensível do dia. Fumo um cigarro, estou em paz.

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