12 de janeiro

Acordei antes das 7h porque, ontem, dormi bastante cedo. Estou lendo sobre polímatas chineses. Segundo Peter Burke, entre 960 e 1279, durante a dinastia chinesa Song, os funcionários públicos eram eleitos mediante o conhecimento de clássicos, poesia, história e política. Durante tal dinastia houve o funcionário Shen Gua, descrito como personagem dos mais interessantes, no âmbito da ciência chinesa. Dentre os variados assuntos que foram objeto de estudo de Shen, destaco a medicina e a poesia (a personagem do meu primeiro romance, dividida entre medicina e pintura, e inspirada por poetas, escolhe as artes plásticas). O trabalho mais famoso desse singelo funcionário Shen, depois de sair do serviço público, foi um livro de ensaios sobre sonhos – há mistério aqui, e pretendo buscar tal livro, cujo título é: Mengxi Bitan. O fim de Shen é melancólico, e seus ensaios chegaram até o presente porque esse funcionário caiu em desgraça, por motivos específicos à época. Interessante isto: Shen foi precursor da Antropologia, no que chamaríamos de “trabalho de campo”, ao fazer anotações sobre povo que conheceu quando de viagem à Mongólia. Estas são as primeiras horas da manhã; dia livre à frente de mim, o que fiz foi prontificar alguns esboços, agora pretendo relaxar, depois continuar a ler sobre os chineses.

A fim de saber um pouco mais dos chineses, descubro isto: no oriente reina uma bondade exemplar, e o ocidente, na sua barbaridade, é tachado de belicoso. Aos chineses, a extensão seria Espaço, e a duração seria Tempo, sendo que tais dimensões não são vistas abstratamente, isto é, são concretos e diversos, de modo que o Espaço são sítios e o Tempo, ocasiões. A especulação filosófica tem isto por objetivo, segundo o livro de Marcel Granet: “classificar, com vistas à ação e em razão de suas eficácias particulares, os sítios e ocasiões.” Os sábios chineses buscam a arte suprema, cujo objetivo é organizar o Universo e a Sociedade, e isto não é compreensível ao ocidente bárbaro, cuja cosmologia científica alimenta o conflito (à parte a cosmologia conflitante, a ciência é elemento essencial, principalmente em tempos de pandemia). Sinto compaixão pelos chineses, exatamente porque, a fim de que esse planeta seja perfeito, esse povo tem de entrar em conflito – segundo a visão chinesa presente nos dias atuais –, o que não é condizente com a bondade que nesse povo é inerente, a não ser se o conflito for visto como parte de processo. O pensamento chinês, em linhas gerais, não é diferente do cristianismo primitivo – porque ambos, embora por meios diferentes, tem a bondade como propósito.

Almoço às 11h: arroz, angu e frango. Agora, café e cigarro. Depois, leitura e escrita.

Na especulação filosófica dos chineses, a quantidade não tem papel. Os números, no entanto, segundo Granet, significam. Um filósofo chinês especula do seguinte modo: “1 rege o Sol; o número do Sol é 10; o Sol rege o Homem.” Essa especulação antiquíssima é precedida pela experiência de contato com os elementos que compõem a existência, no específico que é a natureza. Estou visivelmente impressionado com a sabedoria chinesa, por exemplo, com isto: “O mundo é um universo fechado; como ele, o espaço e o tempo são finitos. Por isso, os sinais numéricos atribuídos como rótulos aos setores do Espaço-Tempo são finitos. Cada um corresponde a um local do Tempo e a uma ocorrência espacial, e eles se ordenam, orientam-se, em forma de ciclo.” O tempo no ocidente é progressista e no cristianismo há a ideia de eternidade, após a morte da matéria. Se, no pensamento chinês, o Mundo é um universo fechado; e se, no pensamento cristão, há eternidade após o fim da matéria, concluo isto: o ocidente cristão parece continuar a sabedoria chinesa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: