Terça-feira 11 de janeiro

A tendência das gerações que nascerão nas próximas décadas, segundo o A., será a de abalar as estruturas historicamente conformadas – sendo que isto não é novo; o abalo de tais estruturas foi exposto por Lacan em escritos da segunda metade do século XX –, e o interessante em tal perspectiva é radicalizar o que A. define como perda da “imago paterna” relacionada ao autoritarismo, esta perda acontecendo em nome da liberdade plena. Neste contexto histórico que vivemos, as transformações no âmbito da técnica são decisivas, e tais transformações acontecem em pós-modernidade cuja característica é a fragmentação social, de modo que estes dois fatores – a fragmentação pós-moderna e as transformações da técnica – fazem com que as referências do passado possam ser perdidas. Enquanto ocorre, em paralelo ao fim das referências, a perda de um passado histórico marcado por constrições de liberdade, isto pode gerar o exaspero que conduz a querer o autoritarismo, ou, se as liberdades que temos forem defendidas – especialmente quando tais liberdades são vistas como avanço –, os tempos por vir podem ser diferentes do que aconteceu no século XX.

O termo “sobrecarga de informação” surge em 1970, segundo o livro de Peter Burke sobre os polímatas. É fácil ter acesso a assuntos que à época de Leonardo da Vinci eram objeto de repressão, e as consequências de tal fato têm caráter científico, no sentido de que a formação de subjetividades sofre consequências. Isto faz com que meu pensamento encontre a “tabula rasa”, conceito antigo, que significa isto: a condição de alguém antes de adquirir conhecimentos. Com as transformações da técnica na pós-modernidade, condicionadas pela atual fase do capitalismo tardio, os seres humanos passam à condição de “tabula rasa”, e, com as possibilidades de acesso fácil ao conhecimento, esta tabula é preenchível pela suposição de liberdade que haveria em cada sujeito. Em tal contexto, a transmissão de conhecimentos entre gerações pode sofrer modificações que conduzem tal transmissão ao fim. Em determinado tipo de infância, descrito por Freud na obra que tem por objeto Leonardo da Vinci, “a liberdade da atividade intelectual poderá ficar limitada”.

A “realidade virtual”, a que temos acesso com nossos smartphones, é o que nós, pensadores, chamamos de terceira natureza. Para Sigmund Freud, a natureza – primeira, segunda ou terceira – é fato incontornável. A sexualidade infantil é questão clássica da psicanálise, e o processo de formação de subjetividades está baseado nas experiências que temos no decurso da infância. Em contexto de terceira natureza – reitero: a realidade dos smartphones –, isto pode ter caráter reversivo diante das percepções sexuais que ocorrem durante a infância. Quero dizer com isto que a terceira natureza, ao invés de tornar pétreas as percepções sexuais que ocorrem durante a infância, pode reverter tais percepções, e, a fim de citar Borges, é como se o sujeito estivesse no interior de jardim de veredas que bifurcam o caminho – o contínuo processo de passar da liberdade à constrição e da constrição à liberdade. Diríamos de subjetividades que acontecem em devir. Vivemos em sociedades de conhecimento, e a realidade virtual, que acessamos a fim de ter tal conhecimento, é repressora da subjetividade exatamente pelo fato simples de que o virtual não é o real, e aqui seria possível sintetizar o seguinte: a realidade virtual, enquanto repressão (basta pensar que a internet surge como ferramenta de controle militar), em contexto de subjetividades em devir, pode dar origem a sujeitos que têm característica intelectual ao modo de Leonardo da Vinci, isto é, um polímata clássico, que tem interesses variados, e que existiu em prol da liberdade plena.

Um diário é sobre as pequenezas do cotidiano. Ontem, fui até o campo contíguo, fiquei com vontade de jogar futebol, chovia, e não joguei. Principia a segunda parte da tarde, a este momento sinto dores de cabeça, pode ser porque estou sem óculos, pode ser porque acordei às 7h e de imediato passei à escrita, pode ser, portanto, que seja estafa mental. Esbocei durante algum tempo o livro que escreverei neste ano, e a escrita, para mim, é fácil, não é talento, é preparo, não é sorte, é trabalho, e é com este trabalho que dou sentido aos dias. Tenho pensado bastante em Roberto Bolaño, tenho pensado nos personagens, e na estrutura, do romance Os detetives selvagens, e tenho pensado na América Latina, a enorme América Latina. Não sei o que sinto pelo Brasil, nestes tempos conturbados, sei o que é o conflito, acredito na educação porque, de 2010 até aqui, passei por longo processo de aprendizagem, a isto tive o auxílio de meus pais, não é com falsa modéstia que exprimo a condição de que não sei o que é uma narrativa ficcional literária, a chuva para, devagar, e estou tranquilo. Comentei com meu pai recentemente: quando saí do Ensino Médio, não sabia o que era Renascimento – os séculos que são os limiares do presente que vivemos –, e agora sou capaz de fazer deduções psicanalíticas a partir da vida de Leonardo da Vinci. Uma narrativa que signifique apenas o que está escrito, dentro de uma economia literária que serve ao prazer estético, é isto o que pretendo. Estilo.

Pensando psicanaliticamente a Geração Alpha, a fim de que esta geração seja ampla em suas possibilidades.

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