Segunda-feira 10 de janeiro

Ontem à noite, TV, e o fato é que a cultura pop parece deprimente – citando James Ellroy. Com as possibilidades abertas pela técnica, os smartphones – e a contrapartida disto é a perda da natureza –, é possível acessar a arte de outras épocas, e mesmo os artistas que no presente não são partes do que em tal presente faz sucesso. Diante da regressão da audição – que é o processo a fazer com que a sensibilidade não tenha distinções diante da qualidade da música que é imposta pelo mercado –, a solução de Adorno seria o que ocorre aos artistas que no presente manipulam conhecimentos passados a fim de, pela disposição que fazem de tais conhecimentos, criarem arte. Acontece que não há como dispor o passado no presente, e esperar que tal passado signifique, porque há o argumento de Walter Benjamin: a perda da transmissão de experiências entre gerações. Enquanto Adorno pretende dar solução, com a manipulação de conhecimentos passados a fim de criar arte com aparência de novidade, Benjamin obstrui tal solução, porque, com a impossibilidade de transmitir experiências entre gerações, o passado é incapaz de ser. A historicidade do sujeito é condicionada pelo materialismo histórico, isto é, em contexto de acelerada transformação da realidade pelo capitalismo tardio, a história das gerações recentes diverge das gerações que existiram no passado, daí o fato de que, assim como o passado qualitativo não significa para as gerações recentes, a arte produzida pelas gerações recentes traz a aparência de que é arte “degenerada”, para as gerações passadas. Apesar da tendência que tenho – de generalizar –, este texto diz de percepção que é minha, e eu não gosto de cultura pop. O que percebo em artistas do passado é: a fim de permanecerem relevantes, tendem a adequar-se ao tempo presente, porque “a arte é o espelho social de uma época”, e o que fazem tem por consequência a seguinte citação de Adorno: “Se perguntarmos a alguém se ‘gosta’ de uma música de sucesso lançada no mercado, não conseguiremos furtar-nos à suspeita de que o gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não gostar.” O artista de música ligeira, a fim de manter-se relevante, dá transformações ao que é – transformações que são condicionadas pelo tempo presente, e no interior de tal tempo o mercado –, e o que resulta disto, para o público, é a possibilidade de transformar-se junto ao artista, e é assim que o passado pode entrar no presente.

Pensando no livro que estou esboçando nestes dias, a única saída parece ser a de seguir a solução de Adorno – estive seguindo isto por intuição, e agora conscientemente –, e o efeito disto será o que é exposto por Benjamin: enquanto a arte que faço significará a quem tem paixão pelo passado, tal arte tem a remota possibilidade quanto a significar às gerações que existem no presente, e que teriam a ânsia por assumir postura crítica diante deste presente. Estamos no verão, e, incompreensivelmente, faz frio no Rio de Janeiro. O frio, enquanto metáfora, é o passado que neste presente está fora de lugar.

Primeira parte da tarde. Estou pensando em F. Em 2013, apareceram várias garotas na minha existência, e, se fosse para entrar em detalhes, E., minha prima, apresentou uma amiga dela, a B., e foi assim que F. permaneceu em mim, porque nas outras eu procurava o beijo que de F. não tive. A TV mostra o caos, e o que eu poderia dizer disto, se o amor, à parte a política, é o fato que determina meus passos? Leio livros, escrevo sobre tais livros, são livros clássicos, e livros clássicos têm transversalidade, isto é, atravessam o tempo e chegam até nós, no presente. Descrevi um personagem meu com as seguintes palavras: este estranho homem, que dedica a vida somente ao amor. Em outra parte do livro: você dá ritmo lento aos passos, até que o amor torne a ser elemento necessário. Este diário, com esta escrita melancólica, às vezes lenta, às vezes rápida, resulta dos anos que dediquei ao pensamento [na faculdade, minha média em filosofia foi 9,1], não tenho mais amor pelo país que amei intensamente, esta é a verdade.

A partir de Sigmund Freud, com o perfil psicológico de Leonardo da Vinci, o que é perfeito: sublimar a libido, a partir da repressão sexual, é o que produz a ânsia pelo comprometimento com causas sociais. É o gentlemen que esquece de si – a cada desilusão amorosa –, em prol da coletividade.

Acordei às 7h. A tarde é lenta. Li e escrevi. A este momento – breve momento –, escuto os pássaros.

A anedota que a Laura Erber conta é a seguinte: quando do ataque às Torres Gêmeas, a poeta estava na universidade, lendo e escrevendo, e então recebe um telefonema a contar o que aconteceu, depois pensa: é o fim do mundo. Meu primeiro livro tem influência da sinopse de um romance da escritora, romance que ainda não li, e que pretendo ler.

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