9 de janeiro

Escrevi meu primeiro romance em 2021. O país atravessava o suposto fim da pandemia, e eu estava imerso na vontade que pretendia dar plenitude à existência. O fim da pandemia não veio, e, a este momento, tal fim é incógnito. Neste ano, pretendo escrever o romance perfeito, e, ainda que exista a possibilidade de eu não ter acesso ao mercado editorial, quero tornar esse livro público. Desejo que esse livro possa significar o leitor. Segundo Walter Benjamin, o narrador dá conselhos, e o desafio é saber onde colher tais conselhos, exatamente porque a realidade de 2022 é crepuscular.

Acordei às 7h e passei imediatamente à escrita. Arthur Schnitzler foi influência decisiva ao meu primeiro romance. Tal autor era considerado o duplo de Freud. Enquanto Schnitzler escrevia ficção, com temas relacionados ao desejo, Freud tinha pretensões científicas. Meu primeiro romance tem tonalidades góticas, e o que eu disse, em tal romance, foi pouco diante do que eu poderia dizer, e o esforço que faço agora, a fim de escrever o próximo romance, é dilacerante, porque o passado que carrego faz somente com que eu sofra. São 08h59.

Esta é a primeira parte da manhã, neste domingo que inicia a segunda semana do ano. Sinto que é como se eu estivesse preso durante longo tempo, e somente agora retornasse à realidade, uma realidade que difere do que escrevi recentemente, sobre a utopia. O fato inconteste, neste retorno à realidade, é este: a diferença entre o que a existência é e as expectativas que temos para tal existência. Ontem foi sonho e, hoje, o que vejo, neste minuto específico, é somente pesadelo. Na infância, minhas manhãs de domingo eram perfeitas; lembro de uma manhã específica, quando R., o afilhado do meu pai, vivia em nossa casa. O café da manhã compartilhado, R., anos depois, teve envolvimento com o tráfico, e hoje não está mais entre nós. R. fez com que eu aprendesse alguns lances de futebol, lances que jamais esqueci, ainda que eu não possa pôr em prática tais lances. É tarde. Ontem, a rapaziada que compõe a base do meu time aplicou uma goleada que assustou até a torcida. Apesar do contexto histórico e pessoal, o ano começa perfeito, estou escrevendo com intensidade, pretendo manter esta escrita.

Meu primeiro livro conta a história de uma mulher, da juventude à maturidade, passando pelos desafios que são partes da existência em realidade difícil, tal qual o contexto imediato expõe. Apesar de ter a obsessão pela prática de pintura, tem interesses variados, que transitam pelas órbitas da cidade e do campo, tocando e desfazendo o fio da morte. É uma personagem admirável, na expressão de força que tem, e tal personagem aparecerá em outros romances meus. É dito que um escritor, por mais que seja diferente em seus narradores, está escrevendo livro igual a cada obra que realiza. Quero que este diário sirva às pessoas que pretendem seguir o caminho da escrita, e aviso da necessidade que é saber dar forma às entrelinhas do romance, a fim de conceder ambiguidades somente decifráveis pelo crítico. A ambiguidade é uma característica a que o polímata dá perspectiva. A personagem do meu primeiro livro é uma polímata que possui segredos jamais reveláveis, há segredos que significam tudo e segredos que significam nada, e a paridade entre tais segredos é o que mantém os começos possíveis. Uma personagem que guarda um segredo irrevelável é personagem que pactua com os limites impostos ao entendimento humano. Um polímata quer saber tudo; por completo, então, nada consegue saber, porque o tudo não é abrangível por si, de modo que deposita sua confiança na morte, à espera da possibilidade que faz saber o que não sabe. Basta ao polímata preencher a existência, longa, com conhecimentos amplos – e esperar. Esta tarde passa devagar, uma chuva leve compõe o silêncio com partituras projetáveis na janela, quão bela é a existência, quão bela parece a existência, porque esta tarde pode ser um sonho. Escrever por prazer; aprendi com Schopenhauer que são diletantes os que escrevem por dinheiro; acontece que o escritor tem necessidades.

Fim de tarde, chuviscos em ritmo lento, enquanto leio sobre os polímatas. A fim de falar de Susan Sontag, aproximarei tal autora de mulheres que no Renascimento produziram saberes em áreas diversas, mesmo pertencendo a este período histórico. A mulher renascentista é caracterizada por estudos singulares, e decerto à frente do tempo, exatamente porque tal mulher sofria em razão do machismo à época vigente. No Renascimento, o acesso ao saber era difícil pelo fato de este ser período de transição entre contextos históricos, e, como se esta barreira não fosse suficiente, o machismo conformava o fato de que conhecimento não era coisa para mulheres. Susan Sontag, ao contrário da mulher renascentista, e sendo tal qual os homens que existiram no Renascimento – isto porque estudou na Universidade de Chicago e teve acesso a estudos amplos –, tem o rótulo de crítica cultural. Tal rótulo é insuficiente, exatamente porque Sontag define a si como escritora que é intelectual. Rubem Fonseca disse que as mulheres são mais inteligentes do que os homens, e, quando Sontag vai até Paris a fim de estudar filosofia contemporânea, passa mais tempo no cinema, o que comprova os dizeres de Fonseca, haja vista que aprender com o cinema é aprender sobre época que está assente na cultura audiovisual. Viciada em escrever ensaios, e em cigarros. O fato é que Sontag foi crítica cultural, e criou pontes de contato entre culturas “alta” e “baixa”. Polímata admirável.

As últimas horas da tarde. Confissão: tenho 29 anos, cresci ao lado de um campo de futebol, em São João de Meriti, e hesito falar o que eu deveria falar. O A. disse que existem muitos jogadores, e são poucos os bons escritores. Às vezes, a fim de lembrar da minha infância, vou ao campo e jogo. O dia, que era pesadelo, fez-se à feição do sonhar.

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