Sábado 8 de janeiro

Conversei com P. brevemente, na terça-feira, sobre o método que estou usando para a escrita do livro que vem neste ano. Estou amargurado, e não é um livro que poderá consertar o passado pessoal que tenho de enfrentar, e que para mim é traumático. Prefiro não falar sobre o que aconteceu desde 2008, quando tive contato com ideias políticas. Eu tinha apenas 15 anos, era e sou facilmente manipulado pelas emoções, e o fato é que – nestes momentos de extrema solidão –, penso em desistir definitivamente. Há um jornal de literatura no Brasil, e tal jornal pergunta aos escritores com quem eles gostariam de tomar um café. Eu responderia que, primeiro, queria ter nascido na década de 1940, para ser amigo de Sérgio Sant’Anna na juventude. Nos anos 1960, na Alemanha, surgiram diretores de cinema novos, entre eles Wim Wenders, que diz em entrevista: àquela época, os diretores colaboravam entre si. Isto para mim é amizade, e eu adoraria dar conselhos literários a Sérgio Sant’Anna, se vivêssemos juntos nossos anos de formação. Os escritores no Brasil têm mentalidade futebolística: querem vencer prêmios literários, e competem feito inimigos, chegam a trocar socos, o que decerto faz rir. Escrevo pelo prazer de escrever, e quero somente o reconhecimento de alguns leitores, nestes tempos de ódio. No campo contíguo, os jovens conversam sobre matar e roubar. Estou pensando em dar as horas seguintes à leitura, é o que farei, e depois escrever algumas linhas sobre os polímatas.

Li sobre Leonardo da Vinci e a tradição de inovação da Florença dos séculos 15 e 16, quando um artista jovem aprendia com os artistas anteriores, nos ateliês. Recentemente, li os dizeres de Freud sobre Leonardo da Vinci, e penso em encontrar tempo, à frente, a fim de comentar este texto. O livro de Peter Burke diz que Leonardo era autodidata, descrevendo a si como “um homem sem instrução”. Leonardo, à parte os estudos, aprendia em conversas com especialistas. Leonardo, diz Peter Burke, desvendou a função da válvula aórtica no coração, é quando encontro pretexto para falar do meu pai, que teve de pôr uma válvula neste órgão que dá ritmo ao sangue. Meu pai, desde 2017, está gravemente abalado pelo que aconteceu comigo, e desenvolveu uma doença nos pulmões. Desde pequeno, sabendo dos problemas de saúde que meu pai tem, incluindo a epilepsia, não foram poucas as vezes que, antes de dormir, meu pensamento era direcionado a futuro que não mais teria a presença deste homem, que esteve comigo até aqui, e estará comigo sempre. Não tenho forças a fim de continuar neste assunto, retorno à biografia de Leonardo da Vinci. A “síndrome de Leonardo”, cunhada por Peter Burke, é sobre iniciar um projeto e não terminar. Um diário é um projeto interessante porque, se pode acabar a qualquer momento – até quando estaremos vivos? –, pode continuar indefinidademente.

Gustave Flaubert diz que seríamos sábios se conhecêssemos, plenamente, cerca de cinco livros. Provavelmente, o autor está falando dos livros que iniciam a Bíblia. O fato é que, a partir deste trecho de Flaubert, elegi cinco autores que foram essenciais na minha formação.

Jack Kerouac: tal autor, segundo Allen Ginsberg, escrevia diamantes telepáticos, enquanto Truman Capote dizia que Jack não escrevia, e sim datilografava. Após a Segunda Guerra Mundial, o que interessava era a liberdade excessiva, Kerouac deu voz a isto, definindo o que somos, em nosso sonhar, até hoje. Conheci Jack Kerouac em 2011, depois da conquista da Copa do Brasil pelo Vasco da Gama, e a obra de Jack transformou minha existência, naquela noite, quando eu tinha dezoito anos.

Silviano Santiago: em 2015, em visita a sebo no Rio de Janeiro, o título deste que é um ensaio literário sobre Graciliano Ramos saltou até meu olhar, e a identificação foi imediata. Silviano escreve sobre a liberdade de Graciliano após o cárcere político em tempos de ditadura varguista. Quando conheci esta obra, eu sofria com a liberdade que eu não tinha – com a liberdade que não tenho –, e a liberdade é o que quero ter a partir desta escrita, angústia.

Sérgio Sant’Anna: este autor marcou minha vida a partir de um livro de contos que não mantém um estilo único, variando as formas, de modo a expor o fato de que a página vazia é perfeita. A página vazia dá a ver a liberdade que temos quando colocamos o espírito diante de tal página, a fim de dar à escrita o conteúdo que quisermos. Sérgio é autor transgressor, lemos o que tal autor expôs, não seguimos à risca o que é exposto, e devagar interiorizamos a liberdade.

W. G. Sebald: a partir de um livro de resenhas do autor J. M. Coetzee, Nobel, conheci Sebald, autor alemão que vivia na Inglaterra, e que ganharia o prêmio maior da literatura, se vivesse mais do que os 58 anos que viveu. A obra de W. G. Sebald é melancólica e dá a ver os limites a que estamos submetidos, enquanto humanos, neste planeta densamente estranho. Se mostra os limites, impulsiona ao âmbito da liberdade consciente, que é necessária para a existência em sociedade.

Umberto Eco: um livro de ensaios a dizer que o fim das obras literárias tem de ser aberto. Há autores que são terminais e há autores que são seminais, e Eco consegue ser ambos. Porque, com este livro, o que temos é o pontilhado a indicar o trajeto a que seguirmos, enquanto escritores, ou, ao contrário, negar Umberto Eco e fazer do romance algo diferente, escrever livremente até alcançarmos o que quisermos, pensando a relação entre ideia e realidade.

Termino de escrever estes pequenos trechos – a liberdade é desejo – e as horas marcam 10 minutos para as 15h, chove lá fora, e eu não estou satisfeito com esta escrita, unicamente porque a ânsia pela perfeição é constante em minha existência. É por isso que eu gostaria de ser o geômetra que projeta a construção irretocável, a arte é sobre harmonizar opostos – é dialética – e sobre atingir o grau de éter a fazer com que os dias sejam leves, quando vem a anotação que traz o prazer.

Do livro de Eco: “O místico (das Mystiche) não está em como é o mundo, mas no que é.”

Do livro de Sebald: “um viajante se aproximava de Norwich sob o céu retinto da noite de inverno que caía, ficava admirado com o clarão sobre a cidade, vindo das janelas das oficinas ainda iluminadas àquela hora do dia.”

Do livro de Sérgio: “sexo, sexo, sexo, nos letreiros luminosos do cinema, como se o interesse maior do homem fosse contemplar infinitamente o ato sexual.”

Do livro de Silviano: “Seu único desespero: não conseguir escrever algo de valor, ou mesmo que despertasse o nosso elogio.”

Do livro de Jack: “Exatamente como garanti, querida, mas lembre-se que não é às três mas três e quatorze – estamos combinados na mais maravilhosa profundeza de nossas almas querida?”

Aniversário de Elvis Presley. Aprendi a gostar de guitarras com meu pai. Há pouco, ouvimos o norte-americano, meu pai ficou visivelmente emocionado, é noite, chove, vou fumar um cigarro, embora queira parar com isto, que é quase vício. Pretendo escrever estudos detalhados sobre os autores que influenciam minha escrita, e que expus brevemente, hoje. Comemos pizza fabricada pelo supermercado, depois bolo de laranja, e agora estou com sede. E sono. O dia foi longo.

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