Sexta-feira 7 de janeiro

A cidade está paralisada em torno da religião, e, se os religiosos leem, leem somente o que está na Bíblia. Assim caminha a humanidade. Em São João de Meriti, de fato, as pessoas não querem evoluir, e não estou dizendo de âmbito biológico – não é de evolução biológica que estou dizendo. É a evolução que ocorre no decurso da existência, e que acontece a partir do contínuo esforço de dar desenvolvimentos ao ser; se sou gótico, por exemplo, é dar acréscimos a isto, a partir de conteúdos que encontramos nos livros, e que descentram. São as primeiras horas da manhã, é quando escreverei algo sobre os polímatas.

Na Idade Média, havia menos a saber do que no período seguinte, a Modernidade que vem com o Renascimento, e isto fazia com que fosse possível conhecer os principais conteúdos existentes à época. 500 anos depois, o que temos é o excesso de conhecimento, e, tal como na Idade Média, o interessante é saber o básico de áreas de conhecimento diferentes, por exemplo, as ciências humanas e as ciências naturais. O desafio parece ser o de pôr em relação áreas de conhecimento que à primeira vista são díspares, a fim de que tal contato possa gerar disciplinas. O incógnito é saber quais disciplinas seriam estas, daí o porquê de eu querer conhecer áreas de conhecimento que até aqui desconheço. O desejo por novidades é marcante para os modernos. Há vaidade em tal ânsia: querer fundar uma disciplina. Penso que, ao menos para mim, este não será um objetivo. Ficar no âmbito da literatura, e aí dar forma a modo de expressão meu, que estaria no equilíbrio entre conteúdos e estilo, esta é a vontade. Pensando os debates que ocorreram no limiar da pós-modernidade, tal é o contexto que definiu o fim da arte: o fim da arte é o fim das escolas de pensamento, exatamente porque cada artista engendra concepção específica para os fatos que compõem o existir. Portanto, definiríamos assim os 500 anos a partir do fim da Idade Média: primeiro, o conhecimento restrito porque condicionado pelas regras religiosas; depois, os modernos e a ânsia por novidades que foram decisivas a fim de que existisse ciência; finalmente, na pós-modernidade, em nossos smartphones, a liberdade para transitar pelo que seja da vontade, ainda que subjugados pelo capital. Diante da pandemia, uma forma de liberdade diferente, aberta pelas possibilidades da linguagem. O polímata histórico é o que compreende o passado não para que o passado entre no presente, sim para lançar luzes a este presente (cuja perfeição, ainda que não seja absoluta, existe no detalhe limiar).

Preciso de um notebook, um relógio, um cachorro e um iPhone.

São 13h47. Esbocei à perfeição. A cidade está em silêncio, e eu escuto as goteiras que resultam da chuva tênue que cai em São João de Meriti, a este momento. Ontem, crise de riso, eu e a C. lembrando dos tempos mais felizes de nossa vida, quando éramos idiotas. Estou apostando na carreira musical da C., minha prima. As horas são lentas, a temperatura é agradável, fumei alguns cigarros. Dar o tempo que vem à música, é isto que vou fazer neste princípio de tarde.

Princípio de noite, faço contatos, aceleradamente, a fim de conseguir trabalhos, e não sei se estou preparado, se não estou preparado, se conseguirei preparo para ser professor, induzido pelos diários de Ricardo Piglia, e pensando que, antes de conhecer Piglia, foi em 2015 que eu tive o sonho de lecionar. A questão é o dinheiro, a fim de sobreviver, e o fato é que não tenho meios para conseguir o básico, um notebook, um relógio, um cachorro e um iPhone, bens materiais que a propaganda insiste em dizer que são necessários. Vou fumar um cigarro, o crepúsculo é próximo, e relaxar. A escolha é entre vida e obra, e eu escolhi a obra. A existência física é passageira, o capitalismo impõe a necessidade por objetos, e, enquanto for assim, estarei condicionado ao ter, ainda que eu seja este que despreza o totalitarismo vigente no mundo, em 2022.

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