6 de janeiro

Acordo antes das 7h, sem que seja da minha vontade. Faço o café e saio à rua a fim de comprar o cigarro a varejo. Enquanto, a este momento, vou despertando lentamente, penso em assistir às notícias da TV. Penso, também, em Bob Dylan, quando tal artista viveu período da carreira marcado pelo isolamento.

Notícias: pessoas procurando por testes de COVID, no Rio de Janeiro; cruzeiros em operação na costa do Brasil; a cidade de São Paulo decidirá, hoje, sobre a realização do Carnaval; vacinação infantil; França aprova passaporte da vacina; números da vacinação no Brasil; 08h48; apoiadores de Trump invadiram o Congresso dos EUA, em 2021; linha direta com Miriam Leitão, sobre ataques à democracia; tropas russas no Cazaquistão; 09h03; o governo do Tocantins decretou emergência por causa da chuva; na Bahia, em Itabuna, ponto fixo de testagem para COVID; levantamento de ONG diz que diminuiu o dinheiro em verbas para evitar tragédias; preocupação com deslizamentos de terras em todo o país; uso de carvão para geração de energia ganha sobrevida no Brasil; lei para proteção de entregadores de aplicativo; 09h21; o tenista nº 1 do mundo pode ser deportado da Austrália; disparada de casos influencia organização de eventos esportivos, no mundo; casos em aumento afetam setor aéreo, em São Paulo; 160 auditores fiscais do trabalho entregam cargos, em Brasília; nos EUA, homenagens a quem morreu na invasão do Capitólio.

A day in the life, now. Estou ouvindo o disco de 1999 da cantora Beth Orton. Há tantos livros que pretendo ler, e, a este momento, não tenho forças para iniciar a leitura. Vou abrir o livro sobre os polímatas, em página aleatória, e fazer a seguinte citação: “No final do século XIX, o clima cultural estava ficando menos favorável para os acadêmicos de interesses amplos.” Decerto que tal contexto é semelhante ao que vivemos, no Brasil, em anos recentes. É interessante notar que a literatura de ficção e não-ficção são expressões privilegiadas a serviço dos polímatas. O romance define um tema e aborda tal tema depois que o autor pesquisa o assunto. O romance necessita de fôlego, e a pesquisa feita pelo autor é conduzida pelo narrador no decurso do livro com exímia paciência, de modo a dispor tal pesquisa à medida que a escrita avança.

São as primeiras horas da tarde. Almocei no Shopping Grande Rio, penso na luta dos que passam fome, é triste. Terminei de fumar um cigarro e vim escrever. Vi um motorista de ônibus admirável. Lembrei de uma Brasília afogada no Rio Pavuna. Pensei em F., e pensei no esforço que fiz para escrever mensagens para ela, meu computador com o teclado quebrado, em 2013. As coisas passam. De tantos amores que tive, F. é única, e foram os amores que acabaram com minha existência, nesta primeira parte que encontra fim a este momento, aos 29 anos. O diário que escrevo é de transição: da juventude à maturidade romântica, exatamente porque a juventude foi romântica. Não sei qual é o motivo, é de repente que meu pensamento vai até a Quinta da Boa Vista, onde encontro a minha infância.

Estou lendo, dentre várias leituras, sobre os autores russos clássicos, especialmente Tolstói e Dostoiévski. O interessante em Dostoiévski é o dialogismo: dar vozes a personagens que têm percepções díspares da existência. O interessante em Tostói é o romance de tese: personagens que passam por transformações durante a existência. A diferença básica entre os dois autores é esta: os personagens de Dostoiévski, entrando em conflito a partir das ideias que têm, permanecem presos nas ideias, o que significa dizer que são movidos pelo ressentimento. A pergunta que faço é: o que faz alguém ser igual aos personagens de Dostoiévski? Confesso que eu seria um personagem de Tolstói, sendo que é complexo explicar por que passei por transformações no decurso desta vida misteriosa. À medida que conheci tal vida, tendo formação religiosa, expressei o amor ao próximo, e falhei em diversas tentativas de propor ao contexto histórico o que tal contexto não é. Se o romance de tese tem personagens que passam por transformação, decerto que tais personagens são espécimes de polímatas. A partir da leitura dos romances de Tolstói, é possível decifrar o caráter específico do que chamo de polímata existencial, que passa por transformações conforme vai conhecendo a linguagem, por vezes cruel, que é a linguagem diante da – e em conflito com – a realidade.

Gostaria de falar de Sérgio Sant’Anna e de um relacionamento que tive em 2016.

Conheci a obra de Sérgio em 2015, em meio aos estudos para o vestibular de História na UERJ. O autor tem um conto cujo título é O sexo não é uma coisa tão natural. Em 2016, apareceu no meu Facebook um caso de “estupro coletivo” que ocorreu em tal ano. Com o conto de Sérgio Sant’Anna no meu inconsciente, disse para a A., com quem eu saía em 2016, quando tal mulher comentou o caso de estupro, e eu perplexo: é parecido com o que fazemos, né? Isto significa que fiz referência ao ato sexual, que para mim demonstra o quão selvagens somos – o sexo não é, de fato, uma coisa tão natural; é estranho –, e, nesta conversa com a A., eu não quis dizer que estava estuprando tal mulher. Até porque a relação entre mim e a A. era consentida. A fim de reiterar o que estou expondo: eu quis dizer, com Sérgio Sant’Anna, que o sexo decerto não é tão natural. A relação entre mim e a A. acabou; a versão de mim, que expus para ela, precisava de constante esforço de minha parte, porque em tal ano eu existia sob o signo de traumas profundos. O sexo não é tão natural, e, para reiterar o motivo deste texto, o seguinte: o sexo cometido em ato de estupro é abominável. Falar sobre sexo é razão de incômodo para mim, e eu fui verdadeiro no relacionamento com a A., quando fiz o teste de HIV antes de fazer sexo, e a A. não quis fazer o teste. Sérgio Sant’Anna morreu de COVID em 2020, aos 79 anos, sem ganhar o Prêmio Camões, e a verdade é que Sérgio merecia o Nobel. Aprendi com Sérgio – que pude ver de perto em evento da Faculdade de Letras da UFRJ – a levar à frente o legado dos beatniks, é por isto que sinto admiração pela geração que nasceu na década de 1940 e viveu o sonho hippie. O amor livre é espécime de amor romântico.

São quase 18h. Para que o dia fosse completo, teria de haver conversas, e isto não aconteceu.

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