Quarta-feira 5 de janeiro

Acordei cedo, tentei dormir mais um pouco, consegui. Depois do café, o cigarro a varejo. Fecho os olhos, a cor que vejo é vermelho. Ontem, no campo contíguo, breve conversa com B., com quem gostaria de fazer amizade, acontece que não há como tomar proximidade para com o vício no ilícito.

Primeiras horas desta tarde quente. Permaneço lendo sobre os polímatas. Peter Burke faz algumas questões, de modo a investigar o polímata, e eu responderei a partir da minha experiência, deixando explícito que a linha a ser ultrapassada a fim de ser polímata é tênue: se vem a vagueza, basta a busca por conhecimento em âmbito diverso.

– O que moveu esses indivíduos? Um professor acendeu a chama do conhecimento em mim, e depois o amor irrealizado fez com que eu avançasse em estudos, esquecendo o passado pessoal e adentrando os caminhos do passado histórico.

– Será que foi uma curiosidade simples, ainda que onívora, aquilo que Agostinho chama de conhecimento “por mero conhecimento”? Nos tempos de vestibular, eu queria estudar pelo prazer de estudar, e não pensava em estudar somente para passar em uma prova. Confesso que o conhecimento do passado histórico, principalmente, mexeu com minhas antigas convicções, e a partir daí tive de lidar com o peso que é o conflito, e escolher o conflito é possibilidade que varia conforme a pessoa.

– Ou será que foi algo subjacente ao que as memórias do cientista político Harold Lasswell chamou de “paixão pela onisciência”? O que aprendi foi o seguinte: o desejo pela onisciência está nos seres porque Deus fez os seres iguais a Ele. Ainda assim, sendo improvável que uma única pessoa conheça tudo, é a partir daí que o planeta visto como substância única – cada pessoa em sua área de conhecimento – espelha a onisciência de Deus. (Este pensamento é teológico, e eu não sou religioso.) Quando falo em “área”, o que sugere especialização, não é em tal sentido, exatamente porque ter uma área é ter a possibilidade que transita por outras áreas, a fim de aprender as várias possibilidades que fazem a existência.

– O que provoca as mudanças de uma disciplina a outra? Estou no âmbito intelectual, e quero aprender algo prático, tal é o fato que faz com que, a este momento de minha existência, eu queira o desconhecido.

– Uma baixa tolerância ao tédio ou um alto grau de mente aberta? Aprendi com Raul Seixas a não ter verdades absolutas.

– Como os polímatas encontraram tempo e energia para seus estudos multifacetados? Ter o apoio da família é um primeiro passo.

– Como ganharam a vida? Ascetismo.

Ao fim deste diário, pretendo ser canonizado. Brincadeiras à parte, e com influências dos beatniks, isto: somos santos negativos que aspiram ao infinito. É a partir de tais divagações que entro na segunda parte da tarde, ansioso pelo cigarro a varejo e o café.

Fim de tarde. Estou pensando em um tipo específico de polímata, que serve ao cotidiano e que aprendi à medida da passagem do tempo: os usos da linguagem, que variam conforme o contexto. Decerto que estou aprendendo isto enquanto vou enfrentando minha timidez. São 17h29 e está chovendo.

Estas são as horas noturnas de solidão que atravessa. Terminei de fumar um cigarro e comi o doce de amendoim. Prefiro evitar dizer do que não gosto. Neste século XX que insiste em permanecer, é a despeito de pandemia que tal século fica atrás (a quem quiser). Para preencher o vazio, a fim de que os pulmões sejam o destino da fumaça, o cigarro que fumarei depois destas linhas. Meu pensamento, dentro da noite, encontra Roberto Bolaño. Hoje, não esbocei o livro, até porque este diário está interessante de ser escrito. Nas redes sociais, há um jovem com doença degenerativa, sou solidário diante dele, e, quando penso em mim, quero esquecer o que fiz, a fim de ter um recomeço, porque ainda sinto o coração pulsando em mim, em meu peito. Menos angústia do que amargura. As pessoas estão ganhando dinheiro, dinheiro neste mundo é liberdade, e eu não tenho liberdade. Isto é o de menos; uma conversa, com quem não use o que eu disse contra mim – citando Renato Russo –, seria suficiente. Melancolia.

Criação de site. Jornal Nacional ao lado do meu pai. Sanduíche de verão, feito por minha mãe: pão de gergelim, maionese, queijo e cebola. Cigarro a varejo.

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