Terça-feira 4 de janeiro

Acordo às 6h45. Dia de pegar a estrada a fim de ir ao Rio de Janeiro. Trânsito por vezes lento, por vezes rápido. Cortamos caminho, passei por lugares onde tive inícios e fins, e esta cidade é incrível. Converso com A., expondo os fatos de minha vida recente, depois encontro P., converso um pouco sobre o livro que à frente escreverei. Tomo café, fumo cigarros, observo os cães, o dia será tranquilo, e está sendo. Quando entro em processo de escrita, evito a leitura, e hoje estou sentindo a ânsia por ler.

Meados desta tarde lenta. Estou lendo sobre os polímatas: são pessoas capazes de realizar o básico em mais de uma área – e às vezes são excelentes em mais de uma área –, sendo que a contraparte do polímata é o especialista. Trazendo a questão para a época que vivemos, e ilustrando com um exemplo: em determinada fábrica, além de saber conduzir processos automatizados, o trabalhador precisa saber algo de administração. Ainda que, depois de operar a máquina, tenha tempo livre, o trabalhador é obrigado a dispender tal tempo em outra ocupação, relacionada ao trabalho na fábrica, ex.: administrar. Aí é que está: depois de operar a máquina, e ao invés de dispender o tempo restante em atividades obrigatórias, o trabalhador poderia dar tal tempo às atividades intelectuais. Sabe-se que nossos anos de juventude decidem o que seremos, e não são todos que pretendem evoluir no âmbito intelectual. Entretanto, trata-se de dar à existência social a possibilidade de formar leitores. Depois que o especialista opera a máquina, por que não ser polímata? Escrevo isto porque dedico o tempo às atividades de pensamento, de modo que seria perfeito se o Brasil fosse país que lê. Peter Burke dá o exemplo de atletas que, após o fim da carreira, dedicam o tempo à política. Conceder tempo aos trabalhadores, a fim de que possam evoluir, exatamente porque o prazer da evolução é a descoberta do que há em si, enquanto potência. Tarde lenta, escrevo porque esta é atividade imersiva que dá prazer, e acredito que a diplomacia aplicada às relações em sociedade – tal como concebida por Bruno Latour –, é o que pode alinhar os desníveis cujo nome são as desigualdades sociais. Decerto que este texto é grão de areia, a realidade está difícil de enfrentar, e a educação é espécime de amor ao próximo, diante de contexto imediato onde vige o caos. Fiquei sabendo que as escolas terão disciplinas a orientar os alunos, no âmbito de projetos de existência, desde tenra idade. Confesso que isto poderia ter existido na minha época de estudante, eu não tive tal orientação, e o que espero é que tal prática chegue a todxs. (Penso que este texto não é panfleto; sugerir, e sugerir diplomaticamente, é ser pequeno entre os grandes, é sobre o complicado processo de aprender a ser humilde, diante do fato incontornável que é o presente, especificamente neste ano carregado de elementos distópicos.)

De repente, o fim de tarde, nestes dias longos de verão. O campo contíguo chama, acontece que não quero jogar hoje, porque estou cansado. Tomar café e mudar de ideia é possibilidade.

Enquanto a noite não vem, e na noite a possibilidade de jogar futebol, leio sobre os polímatas. A definição de polímata, segundo Peter Burke, é: “alguém que se interessa por muitos assuntos e aprende muitos assuntos.” Dar experiências ao corpo e ter experiências intelectuais. Dar experiências ao corpo é o que fazemos desde que estamos despertos, e o desafio parece ser o de ter experiências intelectuais como se de tais experiências o corpo sentisse: a transcendência pela linguagem. Escrevo e o crepúsculo vem chegando, lentamente.

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