3 de janeiro

Acordei às 7h45. Fiz o café e fumei o blend da manhã. Fui até o campo contíguo, a fim de espairecer, a escolinha de futebol em pleno movimento, e voltei para casa. Lançando o olhar até o campo, lembrei do primeiro rebaixamento do Vasco, em 2008, foi quando a T. conversou comigo via MSN, ajudando. O que penso, a este momento, tem a ver com um futuro que é demasiado incerto. A ansiedade traz a sensação de espera por acontecimento que não sei dizer qual é. Nas redes sociais, adentrando o âmbito do contexto político, vejo que muitos comemoram a entrada em ano de eleições, enquanto os realistas, de que sou parte, veem com prudência o que pode ser o encerramento do horror. Aconteça o que acontecer, a existência é breve, e teremos de continuar existindo, com nossos livros, o papel e o lápis, a sabedoria dos chineses e o pragmatismo dos norte-americanos em perpétuo conflito, um quarto fechado e a música. O que pretendo é a liberdade de expressão, a fim de poder continuar no trabalho, nas nossas ficções. São as primeiras horas desta que é uma entre as primeiras manhãs de janeiro. Desde 2020, o mundo está paralisado sob o signo do medo, em torno de uma pandemia que não quer acabar. Chega o momento de passar à escrita de esboços, porque, se a ausência de sons não é completa, os ruídos da cidade tranquilizam, são quase silêncio.

Escrevo sob o efeito de café e cigarro, após este almoço: arroz, angu e frango. No grupo de WhatsApp da faculdade, o A. trouxe notícias de si, e que personalidade admirável esse jovem tem. É um dialético hegeliano, estuda História a fim de conhecer contextos específicos, porque foram em tais contextos que surgiram os variados filósofos ao longo das épocas. Quer ser psicanalista, trabalha na área de engenharia, dedica o tempo que tem à faculdade, gosta de literatura e enfrenta o cinema com intensidade, sempre propondo debates dos mais interessantes. Conheci A. não muito depois de atravessar um período difícil, de que evito falar. De início, tal como eu era antes de chegar à fase atual, evitei fazer amizade com A., em minha timidez e alijado por traumas recentes. Propôs ao grupo da faculdade que assistíssemos ao filme O último duelo, de Ridley Scott. A. sugere que eu inicie uma faculdade de Letras, a fim de compreender melhor esta via ingrata que é a literatura, e até trabalhe na área de crítica. Penso que isso é possibilidade.

Estas são as primeiras horas da tarde. Meu pensamento está vidrado no que chamam “vida interior”. Minha existência dimensional é pulsante, é quando encontro, no personagem que estou a conceber lentamente, partes de mim. O herói do romance de formação, segundo Franco Moretti, quer existência sem conflitos, até que a realidade desce sobre tal personagem, vem a desilusão, na desilusão o peso de um passado. A escrita de um diário é apaixonante, dizem que os melhores diários são os escritos para não serem lidos, e este diário é direcionado a meu pequeno público imediato, a quem entrego o que sou. Pretendi a existência sem conflitos, e neste diário, no relato cotidiano que faço, neste diminuto tempo que dedico à escrita, encontro a ausência de conflito, dentro de tempos conflitantes. Província: São João de Meriti. Cidade: Rio de Janeiro. A Baixada Fluminense está em nível acima da capital, e esta cidade onde vivo é, nessas tardes tranquilas, o que o espírito precisa a fim de envelhecer e rejuvenescer, continuamente. Porque tive uma infância de aventuras, é aos 29 anos que sinto esta velhice aparente, de quem tem histórias a contar. O texto literário é difícil, é por isso que fico no âmbito do ensaio literário, com a mescla entre gêneros e com partes que nada significam, a não ser enquanto expressões de prazer estético. Sem exigir das formas, conduzir as formas até depois do limite, um limite brando, sem os horrores da imaginação, isto é escrever.

Em torno das 16h, o estouro e a falta de luz. Fui ao campo contíguo, a fim de fumar um blend. Os manos estavam no 4G, gastando a onda, e aí ouvi uma reportagem sobre os falsos mendigos no Centro do Rio. O mano comentou: “Tem até uniforme.”

Virginia Woolf: “Mas as palavras que eles trocam, a partir da banalidade, do lugar-comum, bruscamente se tornam cheias de sentido, e o momento é para os dois um dos mais memoráveis de sua vida.”

No fim da tarde, futebol. D. treina a fim de ser goleiro, tem quinze anos, pegará altura dentro de pouco tempo e levará à frente o potencial que tem. Enquanto jogava, pensei no livro de Peter Handke sobre futebol, que ainda não li, e pretendo ler. Futebol é força mental, e, apesar do treino que meu pai fez comigo – ter mentalidade vencedora –, hesito depois da primeira falha. Um lance perfeito, em bola parada, define uma partida de 90 minutos, e é depois do lance perfeito que desapareço do jogo, unicamente porque sinto, com a jogada, o prazer estético. Se fosse possível voltar no tempo; o que resta é a literatura.

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