Domingo 2 de janeiro

Acordo, lento, tomo o café da manhã, depois um expresso e três cigarros. Após o almoço, saio à rua a fim de flanar, porque São João de Meriti é microcosmo de Paris, e é disto que eu gosto. Domingo, a cidade vazia, e o movimento de carros é intenso. Caía pequenos riscos do céu, e agora o tempo está nublado. No bar, bebi uma Coca-Cola, fumei alguns cigarros e pus música. Pensei em Bruce Springsteen, depois Caetano Veloso, fiquei com Barão Vermelho, em composição de Cazuza sobre o amor. Ouvi um senhor dizendo: “Pra falar de política, tem que entender.” Alguns ônibus passam, transeuntes ligeiros passam, atravesso a rua com a música na cabeça, tentando imaginar a quem eu dedicaria essa música. A este momento, dentro deste quarto, sinto a cidade em silêncio, e escrevo. O processo de que eu era parte foi interrompido, acredito que continuará a acontecer, se não aconteceu comigo. Penso na história natural – na dialética do que não será acessível se o mundo permanecer como tal – e é melancólico pensar nisto, a não ser que sejamos selvagens feito Bolaño. Existe, neste entre-épocas condicionado pela revolução industrial que vivemos, o anúncio de fim, e alguém disse que nossa tarefa mais revolucionária é simplesmente viver, em dias como este, o agora.

As horas passaram, e é noite. Meu pensamento encontra F. em territórios mentais que pertencem ao que não mais existe, entre mim e ela. A descoberta da felicidade, em alguma tarde do primeiro semestre de 2013, e na memória. Decerto que estaria escrevendo as melhores páginas dessa hora, que é plena em amor, e dizer amor é piegas. Naquele ano escrevi um conto dizendo da história de um casal que teve de suster o relacionamento por força desta data: dezembro de 1968. Anos à frente, depois de assistir ao filme de Bernardo Bertolucci, eu disse isto: enquanto a revolução acontece, estarei vivendo o amor livre. Volto a pensar em F., no livro que ela emprestou para mim, e faço contas desnecessárias, porque não sei se viverei a velhice, a fim de, quando a cólera passar, houver o reencontro entre dois anciãos que sofrem pela ânsia, a ânsia de ter-se. Ilusão. Um Volks 1970, uma camisa pólo vermelha, um jogo, uma sessão de cinema quase perfeita, o fim. F. é inesquecível, e eu terei de esquecer, escrever é suficiente a fim de realizar isso, acontece que o amor não é ideia fixa; é sentimento que deixará de existir.

Tenho amizades como se tais amizades fossem metafísicas, isto é, há um lugar que existe antes da minha presença, eu chego a este lugar, converso e pronto. Um diário que conta o cotidiano, é o que pretendo para este ano de encontros reais. Estou fechado neste quarto há anos, vou até o campo de futebol contíguo, acendo o cigarro e permaneço tranquilo. Estou esboçando um livro. Rio de Janeiro, Pernambuco. Paris, Berlim, Roma, são lugares que pretendo conhecer à proporção do tempo, viajar indefinidamente por este planeta imenso, que vai além do papel. A falta que sinto é porque o trabalho intelectual tem de ser precedido pelo servir ao próximo, é quando penso em Bob Dylan. No auge da carreira, como se os momentos anteriores, a quem via, fossem fáceis a esse artista, sofreu um acidente de motocicleta. Em meu passado, sofri acidentes, e penso que é com tais acidentes que pago o preço, o preço pela facilidade de uma escrita que com este lápis é macia. Aonde quero chegar?

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