Sábado 1 de janeiro

Trabalho em esboços sensíveis. As partes ausentes de conflito são as que excitam, e dizer isto faz com que venham lembranças de Neal Cassady. Um poeta jovem, cujo nome não sei, criou um blog com título que remete ao que sou: escritor deslocado no tempo, enquanto o fim do tempo não chega até nós. Às vezes, Sal Paradise; depois, Dean Moriarty. Fui dormir cedo e acordei cedo, fumei cigarros industrializados que contém maconha, e agora fumo o cigarro perfeito, leve e tragável a ritmo lento. Os vizinhos acordaram, estão ouvindo músicas, o que faz com que eu entre em depressão rápida, porque esse é o Brasil. Aos vinte e nove anos, tenho a ilusão de que percorri todas as estradas, reais e imaginárias. Direciono o olhar até minha pequena biblioteca e vejo o infinito de Borges. Sérgio Sant’Anna disse, em sua passagem pelos Estados Unidos, país que conheceu depois de publicar o livro de estréia, disse isto: o autor argentino prefigurou a cultura das drogas. A cada linha, surge uma referência diferente, e aí lembro do que alguém disse: judeus são livros ambulantes. Seria extenuante falar de mim enquanto posso falar da relação entre Cassady e Ginsberg: o poeta queria, a partir do diálogo, ter de Cassady o excesso. Decerto que, nas horas solitárias por que passo, procuro alguém a fim de conversar, em busca da palavra que disseram para riscar. À frente de mim, sobre a cadeira que uso como mesa de cabeceira, estão os diários de Ricardo Piglia, está o livro de Laura Erber, Benjamin, Freud, Asimov, e na rua as crianças soltam rojões. É o que um amigo comentou: em São João de Meriti, as pessoas não querem evoluir, é por isso que entro em dúvida para com o que é essa cidade, diante de cenários apocalípticos. Trabalho em esboços sensíveis, estou apaixonado por tais esboços, evito falar mais do livro que acontecerá neste ano. Vou tentar um raciocínio complexo, e até filosófico, que a este momento não sei qual será, e que alguém deve ter pensado antes de mim: a página vazia, segundo Benedetto Croce, aceita o bem, sendo que a realidade não aceita, porque o espaço entre pensamento e ação é determinado pela negatividade. A dialética é uma imposição historicamente condicionada, e eu pensava que o século XX havia encontrado fim, de modo que escrevi livremente, sem saber que o horror é o ego dos outros, e o ego é o inferno. Divagar lentamente sobre o que fazer, porque o melhor psicanalista é o ver-se no espelho. Uma professora que admiro disse que é com esta pandemia que o século XX chega ao fim. Meu pai é alguém que viveu o século XX, sofreu em tal século, e é estranho pensar que eu sinto profundamente o século XX. Antes de morrer, o israelense Oz disse que estávamos perdendo o legado dos que enfrentaram o século XX, esta perda acontecendo por força da passagem do tempo. Feito vagalumes, preservamos esta memória, e é em nome de tal memória que eu diria da esperança que não há em mim. É sobre trocar experiências em relações intrageracionais, e é melancólico pensar que isto será, talvez, insuficiente, nestes tempos que duram 15 segundos. Vou fazer uma citação a partir do acaso. Ligo o celular, vou até a área de downloads, procuro pelo livro de Oiticica, deslizo o dedo sobre a tela e encontro isto: “O que criam [os artistas que não realizam síntese] é fermento da arte futura, que nada deve ao passado imediato em sua fúria anticultural.” Esta frase tem de ser o percurso a que seguir em 2022. A fúria anticultural (à parte as críticas ao termo “cultura”) é o que está no poder. Sem mais, retorno a Neal Cassady: escreveu um livro que retrata os primeiros vinte e cinco anos da existência que teve, e, antes, com as cartas endereçadas a Jack Kerouac, influenciando a escrita deste, Cassady mudou o mundo definitivamente. No caos que é este texto, o caos que é este planeta, hoje, primeiro de janeiro de 2022.

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